O Banco do Brasil anunciou ontem que o decreto legislativo aprovado pela Câmara dos Deputados extinguindo a correção monetária sobre todos os empréstimos do crédito rural concedidos desde 1979, agora em tramitação no Senado Federal, poderá implicar na devolução de US$97 bilhões aos agricultores, considerando somente as operações do BB. O valor é superior a todos os ativos da instituição, de US$65 bilhões, e 15 vezes maior que o seu patrimônio líquido, de US$6,4 bilhões. Isso significa que o banco não teria de onde tirar o dinheiro. O presidente da instituição, Alcir Calliari, anunciou que, diante da ameaça de aprovação do decreto, o BB decidiu suspender as liberações dos empréstimos rurais em todo o país, assim como a concessão de novos financiamentos. "Adotamos uma posição de cautela. Temos a obrigação de proteger o interesse dos nossos acionistas", justificou Calliari, completando que a suspensão é temporária, "até que se encontre uma solução para a questão". Com isto, o crédito rural fica praticamente paralisado, pois o banco responde por 75% das operações no setor. O contribuinte pagará a conta pela decisão da Câmara. Segundo o deputado federal Pedro Tonelli (PT-PR), que participou da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do endividamento agrícola, a medida iguala bons e maus pagadores e vai bater no bolso do contribuinte, pois o Tesouro terá de cobrir a maior parte do rombo. Os bancos oficiais respondem por aproximadamente 80% do custeio agrícola em todo o país e, portanto, serão os mais prejudicados com a medida. O BB participa com a quase totalidade dos créditos liberados pela rede pública. De acordo com o deputado, só há uma maneira de o banco cobrir o rombo, caso o decreto legislativo seja aprovado pelo Senado: recorrer ao Tesouro Nacional (JB) (O Globo).