SÃO PAULO MUDA ORIENTAÇÃO DA POLÍCIA MILITAR

Famosa pelo massacre do Carandiru, a Polícia Militar de São Paulo está assumindo uma postura "soft" e menciona a defesa dos direitos humanos como uma das principais mudanças a serem introduzidas na conduta da tropa. O novo comandante-geral, coronel José Francisco Profício, assumiu o cargo na semana passada definindo, num manual de princípios básicos, "o espírito de polícia-cidadã, voltada essencialmente para a defesa da pessoa humana e de seus direitos". A mudança, na verdade, vem se processando desde que a corporação foi obrigada a mudar radicalmente sua forma de ação, forçada pelo reflexo negativo gerado a partir da matança de 111 presos do Pavilhão 9 da Casa de Detenção. As estatísticas sobre morte de civis, supostos marginais, em confronto com policiais militares reforçam o discurso sobre a mudança: o número de mortos em conflito com PMs caiu de 1.450 em 1992-- o período em que os policiais mais mataram na história dos conflitos de rua-- para 356 no ano passado. A temida Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (ROTA), que já foi apontada pelos organismos internacionais de direitos humanos como o grupamento que, individualmente, mais mata no mundo, também acompanhou a queda. De 300 mortes em 1992, baixou sua estatística para 36 em 1993. Os números revelam que a repercussão negativa do massacre do Carandiru foi uma espécie de divisor de águas na história da PM. A linha dura da corporação, que apoiava o confronto direto com supostos marginais, cedeu lugar ao grupo que trabalhava por uma filosofia menos agressiva de segurança. O comando implantou medidas de auto-controle-- como a obrigatoriedade de exame residuográfico nas mãos dos civis mortos, uma forma de comprovar se o suposto bandido disparou contra os policiais-- e forçou os PMs envolvidos em confronto a passar por tratamento psicológico. O trauma do Carandiru está sendo superado aos poucos, diz o coronel Hermes Bitencourt Cruz, diretor de Comunicação Social da PM paulista, um dos que mais lutaram para mudar o estilo agressivo da tropa. "O policial militar vai atuar na defesa do cidadão ofendido. A iniciativa de ação ofensiva não caberá nunca à polícia", afirma o oficial, que cunhou a expressão "polícia-cidadã" para definir o novo estilo. Ele acha que, com isso, o comando vai conseguir inverter a expectativa do comportamento do cidadão em relação ao policial e vice-versa. "O cidadão vai ser bem tratado e, com isso, o policial não terá motivo para conflito", garante (JB).