EXTERMÍNIO DE CRIANÇAS É DIVULGADO NO EXTERIOR

No próximo dia 10, a organização de direitos humanos Americas Watch lança, em todo o mundo, um relatório de 120 páginas intitulado "Justiça Final", que trata do extermínio de crianças e adolescentes no Brasil. Diz o documento que "no Brasil, a impunidade continua a prevalecer, e ela é produto da falta de vontade política de investigar os responsáveis". O documento será divulgado, ao mesmo tempo, em Nova Iorque, Washington e São Paulo. No Brasil, a divulgação fica por conta do professor Paulo Sérgio Pinheiro, responsável pelo Núcleo de Estudos da Violência, da Universidade de São Paulo (USP). O relatório vai ser enviado às principais universidades do mundo e a todos os embaixadores estrangeiros que moram no Brasil, e também ao presidente Itamar Franco. Diz o relatório que, entre 1988 e 1991, 5.644 crianças, entre cinco e 17 anos, foram "mortas de forma violenta" em todo o país. Em seis estados brasileiros, 62% das vítimas de homicídio em 1992 tinham entre 15 e 17 anos. No Rio de Janeiro, os grupos de extermínio cobram de US$10 a US$40 para matar um menor. Em Duque de Caxias (RJ), entre 1973 e 1991, ocorreram 2.115 mortes de crianças e, em 90% dos casos, os crimes não foram solucionados. Em São Paulo, 76% dos menores assassinados em 1992 eram estudantes ou trabalhadores. O documento exige do governo federal providências na apuração dos casos, já que, relata, 7,5 milhões de crianças entre 10 e 17 anos, vivem no Brasil de trabalhos feitos exclusivamente nas ruas. A Americas Watch concentrou suas investigações em quatro estados brasileiros: Espírito Santo, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Encontramos uma impunidade persistente; a análise detalhada de casos
77806 demonstrou um modelo geral de impunidade, escreveram os pesquisadores Jim Cavallaro e Ben Penglase. A violência no Brasil, sustenta a entidade, deve ser atribuída à pobreza e "a complexas forças sociais, que criaram uma situação onde a justiça extra-legal é um método aceito para proteger as comunidades". Em suas alegações finais, o documento é tachativo: "Não se podem esperar soluções, particularmente quando se torna aparente que a polícia é responsável por uma porção significativa dos assassinatos" (FSP).