O trabalho precoce no corte de cana das usinas do Nordeste, que começa aos sete anos de idade, está produzindo uma geração de "mutilados". Segundo pesquisa do Centro Josué de Castro, do Recife (PE), em convênio com a fundação inglesa Save The Children, essa geração está condenada a uma expectativa de vida em torno de 46 anos, 17 anos abaixo da média brasileira. Somente em Pernambuco, onde a pesquisa foi concentrada, cerca de 54 mil crianças-- entre sete e 13 anos de idade-- já estão armados de foice, trabalhando 44 horas por semana nos canaviais. Mais da metade deles (57%) são vítimas de acidentes graves, provocando cortes no corpo. "É o retrato do Brasil mais arcaico, onde predominam a mutilação física e da cidadania ao mesmo tempo", diz a socióloga Teresa Corrêa de Araújo, coordenadora do estudo. A pesquisa foi feita no ano passado, na Zona da Mata pernambucana-- uma área considerada padrão para se traçar o perfil dos trabalhadores que servem aos usineiros nordestinos. Com 52 municípios e 1,5 milhão de habitantes, a região é dominada pela monocultura da cana-de-açúcar e mantém até hoje resquícios do trabalho escravo do tempo das senzalas. As atividades das crianças e adolescentes (de sete a 17 anos) nos canaviais já representam 25% de toda a mão-de-obra empregada nas usinas. A maioria das crianças não recebem um centavo pelas suas atividades, mas têm que ajudar o pai, obrigado a cortar 2,4 toneladas de cana por dia. O trabalho no corte de cana corresponde, na Zona da Mata de Pernambuco, a uma renda per capita de CR$10,9 mil-- um terço do salário-mínimo. Caso seja aplicado em comida, todo o rendimento equivale apenas a 58% da quantidade de alimentos necessária para uma família, que possui em média sete pessoas na área canavieira. Poucas crianças podem estudar, por conta da carga pesada de trabalho. Entre raros meninos e meninas que vão à escola, o aproveitamento é considerado um desastre: a maioria (52%) não consegue sequer aprender ler após três anos de estudo (FSP).