HERBERT DE SOUZA CRITICA O TEXTO DO BIRD

O articulador da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida, Herbert de Souza, o Betinho, considerou "altamente preocupante" o boletim do Banco Mundial (BIRD). Uma instituição que se diz defensora do desenvolvimento e que luta contra
77804 a miséria permite-se tratar do tema da vida humana sob este prisma, criticou ele, após ler o texto. "A vida não pode ser submetida ao mercado nem ao Estado", diz Betinho, para quem "este exercício lúgubre, pode chegar a justificar o genocídio e o campo de concentração". Os autores do boletim apontam para o "problema ético" deste tipo de abordagem e reconhecem ser "muito difícil" identificar e medir os impactos ambientais sobre a saúde ou atribuir valores monetários a doenças e morte. Se é assim, por que os técnicos do banco perdem tempo, dinheiro e papel com exercícios deste tipo, em que o ser humano entra como uma fria variável, o valor da morte é medido pelo rendimento e condições econômicas do país de origem? Análises deste tipo geralmente servem para convencer os banqueiros-- que
77804 só entendem a linguagem dos números-- a soltar dinheiro, explica o pesquisador e especialista em contabilidade ambiental Peter May, professor visitante da Universidade Rural do Rio de Janeiro. No entanto, ele também aponta, para a necessidade de limites éticos para este tipo de exercício. No rigor da teoria do Capital Humano, um dos métodos de avaliação da vida humana descritos no boletim, os indivíduos são "unidades de capital humano que produzem bens e serviços para a sociedade", em que "o valor de cada unidade de capital equivale ao valor presente de uma produção futura na forma de renda que poderia ter sido gerada se o indivíduo não tivesse morrido prematuramente". Por esta lógica, a vida de um habitante do Burundi de fato é insignificante, comparada com a de um japonês. Fatores como dor e sofrimento são simplesmente ignorados neste tipo de conta. "Outras dimensões da contribuição de um ser humano para a sociedade, tais como seu empenho pelo bem-estar dos outros ou outras atividades não-econômicas não são levadas em consideração", admite o texto. Desta forma, a vida de mulheres ou idosos fora da população economicamente ativa não valeria nada. Apesar destes problemas éticos, o boletim assegura que existem "benefícios econômicos para prevenir problemas de saúde decorrentes da poluição". Por mais nobres que sejam seus objetivos, o Banco Mundial parece ter se inspirado em Jonathan Swift, que no século 18 satirizava parábolas sobre o custo/benefício de criar crianças para comer e a idade certa para matá-las, considerando os gastos com alimentação e a taxa de ganho de peso. Resta saber qual o valor da vida de um burocrata do Banco Mundial que ganha um salário de US$7 mil por mês para produzir este tipo de pérola (JB).