A vida de um latino-americano ou de um africano vale menos que a de um
77803 europeu? Dados citados por um boletim do Banco Mundial (BIRD), mostram que pode chegar a valer até 100 vezes menos. Pela teoria do Capital Humano, em que se baseia o boletim, a morte, por exemplo, de um jovem de 25 anos, num país industrializado, pode significar prejuízo de US$2 milhões a US$5 milhões. Já um nativo de país pobre com nível de educação e atividade equivalentes "vale" de US$50 mil a US$100 mil. Trata-se de uma análise sobre "os custos econômicos dos efeitos da poluição sobre a saúde", publicada no boletim interno Dissemination Notes- Environment, de setembro de 1993, de responsabilidade da vice- presidência do banco, para nortear o Desenvolvimento Sustentável. Outro exemplo citado pelo boletim: um mexicano com salário anual de US$7,7 mil, morto prematuramente por causa da poluição atmosférica, "vale" US$75 mil, considerando uma perda média de 12,5 anos de vida produtiva e um desconto de 5% ao ano. No caso da cidade de Cubatão (SP), no Brasil, o valor da morte por poluição "cai" para US$25 mil (o estudo é de 1988). Fatores que explicam essa diferença: idade (em Cubatão, 45% das vítimas de poluição têm menos de 10 anos) e maior probabilidade de desemprego (leia-se: ausência de rendimento). Dois anos depois do histórico memorando propondo a exportação de indústrias "sujas" para países de Terceiro Mundo, como forma de promover uma distribuição mais "equitativa" da poluição do planeta, o Banco Mundial volta à cena com o controvertido documento. O boletim-- cuja finalidade é ensinar ao resto da equipe do banco como aplicar a teoria econômica às questões ambientais-- discute formas de atribuir valores monetários a fatores como vida, doença e morte para uma finalidade aparentemente nobre: convencer as autoridades a investirem para reduzir os danos à saúde. Da mesma forma que o memorando do ex-economista-chefe (hoje subsecretário do Tesouro do governo Clinton), Lawrence Summers, no entanto, o texto usa e abusa de uma fria e impecável argumentação econômica e justifica a necessidade de medir a vida humana em nome unicamente da lógica custo/benefício. As preocupações que levam os economistas do banco a analisar este tema são justas: "Atribuir um valor (ainda que inevitavelmente subestimado) à mortalidade causada pela poluição pode ser um poderoso instrumento para colocar à mostra os custos da omissão", diz o texto, citando o exemplo da cidade japonesa de Yokkaichi, onde emissões de dióxido de enxofre (SO2) causaram danos à população em 1967. Em muitos casos, especialmente quando o controle da poluição da água ou
77803 do ar pode significar investimentos de centenas de bilhões de dólares, é
77803 apenas um ato de responsabilidade tentar contabilizar os custos que
77803 poderiam ser evitados com investimentos deste tipo, é a argumentação do texto (JB).