SOCIEDADE TEM QUE APRENDER A PRESSIONAR

O estandarte da campanha Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida está dois quilos mais magro. O sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, aos 58 anos, aidético, tem na balança, ultimamente, mais uma fonte de preocupação: "Posso comer o que quiser que não engordo. Acho que não vou engordar mais", diz ele. A AIDS, no entanto, está sob controle, segundo garante. Foge das infecções oportunistas fazendo tratamentos preventivos diariamente contra tuberculose e pneumonia. Além disso, toma o AZT e todos os tipos de vitaminas necessárias para controlar o mal. E, principalmente, luta: "Não há nada melhor do que uma campanha contra a fome para curar a AIDS", diz, brincalhão. Betinho está otimista: acredita que 1994 será um ano de grandes realizações e crê também na cura da AIDS. Mas não esconde a decepção com a omissão de alguns setores da sociedade com relação à campanha e chega a ter medo de ter acesso ao "botão vermelho do fim do mundo" quando se vê diante de crianças famintas". Ultimamente, tem sua agenda completamente lotada. Anda devagar, fala pausado, mas nunca deixa de lado a veemência e revolta que marcam a sua personalidade que, há oito meses, resolveu levantar a poeira do triste quadro de indigência do país, que deixa à míngua 32 milhões de brasileiros. "A campanha é um grito, uma denúncia. Estamos no rumo certo, por isso sou otimista e tenho certeza que dá para mudar a situação", diz. Meu balanço da campanha, então, é o seguinte: em 93 abrimos uma agenda
77339 de questões profundas, que são o emprego, a terra, a redefinição do
77339 modelo econômico. Em 94, vai ser o ano em que aquilo que a gente sonhou
77339 que seria possível vai começar a se tornar realidade. Vamos poder atuar
77339 com um nível de autoconfiança muito maior. Não é só mais um louco, dois
77339 ou três que estão acreditando nisso. Perguntado se a sociedade já fez o papel que lhe cabia, respondendo ao clamor da campanha, Betinho afirmou: "Não, a sociedade apenas começou a fazer o papel dela. Tem que aprender a pressionar, cobrar de todo mundo. Não é so entregando um quilo de alimento não perecível à porta do teatro que se muda uma situação de miséria. O dar é o primeiro gesto. A pressão, a proposta, a criatividade, a mobilização e até a eleição, isso tudo vai ser esperado da sociedade". Sobre o que espera das autoridades governamentais disse: "A nível federal, o governo tem que passar, efetivamente, da definição de prioridade da política econômica, a incorporar a luta contra a miséria e a fome na política econômica e de todos os ministérios. Entre a intenção do presidente Itamar Franco, e a realização disso concretamente, existe uma distância que tem que acabar. Acho que o Itamar entendeu a campanha como prioridade absoluta" (O Globo).