BRASIL DESPERDIÇA US$5,4 BILHÕES EM ALIMENTOS

O Brasil que passa fome se dá ao luxo de desperdiçar US$5,4 bilhões em alimentos por ano, segundo cálculo da Coordenadoria de Abastecimento, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. O valor, correspondente a 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB), é suficiente para abastecer, com uma cesta básica mensal (36 quilos), os 9,2 milhões de famílias indigentes do país durante dois anos. A projeção da Coordenadoria de Abastecimento considera apenas perdas agrícolas decorrentes de deficiências nos processos de colheita, transporte e armazenamento de grãos, hortaliças e frutas. Se fosse possível calcular as perdas que ocorrem na agroindústria,
77233 supermercados, restaurantes comerciais e industriais e o desperdício das
77233 próprias donas de casa, o valor seria bem maior, diz Rosalba Toledo, coordenadora de abastecimento. O número é surpreendente. É uma demostração inequívoca de que a fome
77233 do Brasil, sob todos os aspectos, é um absurdo e tem cura, diz o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que lidera o movimento Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida. A miséria no Brasil já tem o tamanho do Estado de São Paulo. Pesquisa elaborada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) estima em 31.679.095 o número de indigentes no país, o equivalente à população paulista. São 9,2 milhões de famílias cuja renda permite, no máximo, a compra de uma cesta básica de alimentos por mês. As histórias destes brasileiros formam uma espécie de manual de sobrevivência. Eles se alimentam de arroz com mandioca no norte de Minas Gerais, comem cacto e farinha de milho no sertão nordestino, garimpam lixões em Duque de Caxias (RJ) e, para enganar a fome, recorrem até ao turu, molusco extraído de troncos molhados à beira do Tocantins, em Abaetetuba (PA). Reginaldo de Souza Gonçalves, 22 anos, é um dos "loucos da fome" de Ouricuri (PE). Há cinco anos surgiram os primeiros sintomas de desequilíbrio mental, que os médicos associam à subnutrição. "Ele fala besteira, conversa sozinho e fica revoltado de repente", conta sua mãe. O mapa da fome tem contornos mais fortes no Nordeste, onde cerca de 40% da população (17,2 milhões de pessoas) está na linha da indigência, segundo o IPEA. No norte de Minas Gerais, estado que abriga 3,5 milhões de indigentes, a seca arrasou as lavouras e agravou a miséria de 36 municípios que formam o Vale do Jequitinhonha. Laura Rita, 40 anos, deu seu filho caçula de um ano para poder trabalhar na roça e arrumar comida para os outros quatro meninos. Não é preciso ir tão longe. A fome está por todos os cantos do país. A 20 km do centro de São Paulo, dois mil indigentes frequentam diariamente o sopão do CEAGESP. Juliano, 10 anos, é um dos fregueses assíduos do prato de 400 gramas servido pelo entreposto. Abandonado pela mão aos dois anos, ele perdeu o pai aos oito e hoje vive nas ruas da cidade. Não há falta de alimentos no mundo. A fome é resultado da pobreza,
77233 desigualdade social e ignorância, disse Edouard Saouma, diretor-geral da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação). Segundo ele, 786 milhões de pessoas passam fome em todo o mundo. Só na América Latina há 60 milhões de subnutridos. De acordo com cálculos da FAO, o Brasil tem um potencial pesqueiro de dois milhões de toneladas anuais. Mas segundo Olintho da Silva, presidente da Fiperj (Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro), o país não captura anualmente mais de 700 mil toneladas de peixes, 98% das quais em águas marítimas. A quantidade de pesca fluvial é irrisória. O consumo de pescado no Brasil não passa de 6,5 quilos per capita ao ano, que é a metade do mínimo recomendado pela FAO. Enquanto aqui a produção pesqueira está longe de um milhão de toneladas, no Japão ela alcança 12 milhões de toneladas por ano. Os japoneses importam mais oito milhões de toneladas de pescado por ano (FSP).