QUINZE MILHÕES DE MENORES EM ESTADO DE POBREZA

O Brasil tem 15 milhões de crianças e adolescentes que vivem em estado de miséria. Isso representa 46,9% do total de 32 milhões de indigentes e um quarto da população infanto-juvenil do país. Os dados foram levantados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) a pedido do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA), formado por representantes do governo e da sociedade civil. O trabalho é um desdobramento do Mapa da Fome, publicado em março pelo instituto e que quantificou o número de pessoas em estado de miséria no país. Os dados servem de base para os projetos da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida. No texto de apresentação da pesquisa, os técnicos do IPEA recomendam que crianças e adolescentes sejam prioridades nos projetos de combate à pobreza. "Eles formam uma população mais vunerável aos efeitos da miséria absoluta e a riscos irreparáveis no desenvolvimento físico e intelectual", analisa Anna Maria Peliano, coordenadora da pesquisa. "É preciso uma ação urgente para reverter esse quadro", diz. O Nordeste concentra o maior número de crianças e adolescentes que sobrevivem em condições de miséria. São 8,6 milhões de pessoas, 43% dos menores de 18 anos da região. Com esses números, o Nordeste é responsável por 59% do total de indigentes brasileiros do grupo infanto- juvenil em estado de pobreza absoluta. A Bahia tem 1,5 milhão de jovens carentes. Esse problema é enfrentado no Rio de Janeiro por 471 mil pessoas e por 327 mil em São Paulo. Um pouco mais da metade das crianças e adolescentes em situação de extrema pobreza-- 7,8 milhões ou 54% dos menores de 18 anos-- vivem em áreas rurais. Mais uma vez o Nordeste rural reúne o maior universo de indigentes-- 5,2 milhões de pessoas (56% da população rural nordestina nessa faixa etária). A pesquisa mostra um dado curioso. De cada quatro brasileiros indigentes com menos de 18 anos, um encontra-se numa família chefiada por mulher. No total, são 3,3 milhões de pessoas nessa situação. Pelo levantamento, esse fenômeno é essencialmente urbano. Nas regiões metropolitanas foi observada uma incidência de 39% de crianças e adolescentes que vivem nessa estrutura familiar. Nas áreas rurais, essa condição reduz para 13%. "Os maridos abandonam as famílias e a mulher é obrigada a desempenhar os dois papéis sem a mínima estrutura", explica o sociólogo Antônio Pontes. Rio de Janeiro, São Paulo e Recife apresentam o maior número de crianças que convivem dessa forma, num total de 422 mil pessoas. Um terço dos indigentes de sete a 17 anos não está frequentando a escola. O IPEA constatou que 23% dos jovens, entre 15 e 17 anos, são analfabetos. No Nordeste o índice chega a 32%. Apenas 20% do total de miseráveis conseguiu completar a quarta série primária e 400 mil não estudam nem trabalham (O ESP).