Cerca de 80% das oito toneladas de cocaína apreendidas no Brasil este ano pertenciam ao Cartel de Cali, a organização colombiana que, com a morte do megatraficante Pablo Escobar, consolida cada vez mais sua posição como maior usuário das rotas nacionais no transporte de droga para os EUA e Europa. Os relatórios da Polícia Federal apontam que há mais de três anos o Cartel de Medellin, que era chefiado por Escobar, vem cedendo espaço ao de Cali, que passou a operar dentro de uma nova estratégia: a terceirização do transporte de cargas de cocaína, executada por brasileiros contratados exclusivamente para essa função. O delegado Roberto Precioso Júnior, da Delegacia de Entorpecentes do Departamento de Polícia Federal em São Paulo, diz que por esse trabalho os brasileiros recebem, em média, algo em torno de US$2 mil por cada quilo de pó colocado seguramente num navio. "O Brasil é uma rota alternativa por suas dimensões continentais e a infra-estrutura natural que permite a ocultação do tráfico", afirma o delegado. As operações típicas do Cartel de Cali, segundo a PF, envolvem partidas superiores a 500 quilos de cocaína. A droga deixa a Colômbia em aviões das quadrilhas e é depositada em fazendas do Para, Mato Grosso, Amazonas, Maranhão, onde fica armazenada até que as quadrilhas brasileiras criem condições de escoamento. Geralmente a cocaína é camuflada por empresas de fachada e é despachada por navio. O papel dos brasileiros nesse processo se limita a transportar a droga em território nacional e se encerra quando a carga chega ao porto de onde será levada para o exterior. Os relatórios da PF mostram também que, como rota de passagem da cocaína que abastece os maiores mercados consumidores, o Brasil perde para o Peru, Venezuela, Panamá e México. A preferência do país como rota alternativa é muito mais por sua proximidade com a Bolívia-- onde grande parte da droga produzida pertence ao Cartel de Cali-- e Colômbia. Outro fator que facilita o uso do país é a integração entre traficantes brasileiros de peso com os colombianos, uma relação formada há vários anos por conta das proximidades dois dois países (JB).