GATT ESTÁ A REBOQUE DOS PAÍSES RICOS

A Rodada Uruguai do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT) viverá, no próximo dia 15, sua hora da verdade, em mais uma etapa da batalha pela redução dos subsídios agrícolas. Em sete anos de encontros e debates, pôde-se constatar que os EUA, a Comunidade Econômica Européia (CEE) e o Japão foram os que tiveram mais cacique para emperrar ou fazer evoluir as negociações do GATT. O motivo é simples: eles desfrutam de maior poder político e econômico no cenário mundial. Sem o mesmo peso na balança, os demais produtores penam para aprovar seus pontos de vista. As negociações multilaterais no GATT envolvem 116 países. As negociações dentro do GATT refletem a atual situação de poder
77093 econômico e político no mundo. Apesar da formação do Grupo de Cairns,
77093 que reúne os países em desenvolvimento, inclusive o Brasil, os demais
77093 produtores não têm a mesma forma em relação aos EUA, à CEE e ao Japão.
77093 É uma realidade histórica, comenta Maria José Cyhlar, economista do Centro de Estudos Agrícolas da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A chefe do Centro de Economia e Governo da FGV, Lia Pereira, explica que, na estrutura do GATT, o voto de cada país tem o mesmo peso. Ela acrescenta que, no entanto, na prática, os acordos são dominados pelos interesses dos países mais poderosos. "Quem tem mais poder de peso político na comunidade internacional acaba influindo na agenda do GATT. Esses grupos ou países têm capacidade maior para emperrar as negociações. Os demais países ficam sem o poder de retaliar as decisões", observa Lia Pereira. Além do peso político e econômico, os EUA e a CEE, principalmente, são grandes produtores e consumidores de gêneros agrícolas, o que garante cacife maior nas decisões do GATT. Nessa batalha desigual, os países desenvolvidos contam, ainda, com a força do Japão, grande consumidor de produtos agrícolas, que sempre ameaça endurecer as conversas com agressiva política industrial. É muito difícil reverter o quadro de concentração de poder, uma vez que
77093 as forças políticas e econômicas são desiguais. Além dos subsídios, os
77093 EUA e a CEE são protecionistas em relação à entrada de produtos de
77093 outros países em seus mercados, ressalta Maria José. O economista Sérgio Waddington, do Grupo de Estudos sobre Economia Mundial do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) bate na mesma tecla: o poderio econômico faz com que os países desenvolvidos dominem a cena. Segundo ele, a Rodada Uruguai do GATT envolve interesses protecionistas muito fortes, puxados pelos lobbies agrícolas de cada país. Os benefícios de um possível acordo na Rodada Uruguai do GATT são quantificados com alarde e, segundo o Banco Mundial (BIRD), as reduções tarifárias, cortes de subsídios, proteção da propriedade intelectual e regulamentação do comércio internacional de serviços podem gerar um aumento entre US$213 bilhões e US$274 bilhões anuais no comércio mundial (JC) (JB).