PEDAÇO DA AMAZÔNIA À VENDA NO EXTERIOR

Está à venda no exterior o maior pedaço da floresta amazônica brasileira desde que este tipo de transação foi limitada em 1971: um terreno no Acre- - um estado marcado pela violência em disputas de terras e ambientais-- com 224.386 hectares, o que equivale à área do Distrito Federal ou duas vezes à do Município do Rio de Janeiro (RJ). Os proprietários-- a Companhia Paranaense de Colonização Agropecuária e Industrial do Acre (Paranacre)-- ainda não têm, no entanto, autorização para vender a área a estrangeiros. Segundo a legislação agrária brasileira, terrenos naquele estado com mais de 10 mil hectares só podem ser comercializados no exterior com a aprovação do Congresso Nacional. Ainda não negociamos a área. O escritório de Genebra (Suíça) é que
77080 está cuidando disso. Porém, quando tivermos algum interessado, vamos
77080 fazer tudo dentro da lei, disse Pedro Barbosa Lopes, um dos diretores da Paranacre. A empresa está oferecendo inicialmente as terras a organizações ambientalistas estrangeiras. "A floresta é extremamente rica", disse o jurista suíço Etienne Nebel, que, com seu assistente brasileiro, foi contratado para achar um comprador até abril do ano que vem. Para atrair futuros compradores, os advogados estão sugerindo a exploração racional de algumas das 25 espécies de madeira tropical nobre existentes na terra, a criação comercial de espécies animais (jacarés e borboletas) e a comercialização de produtos renováveis como nozes, borracha, peixes e plantas medicinais. Segundo o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis), não há áreas de preservação dentro das terras da Paranacre, mas existem nas proximidades quatro reservas indígenas. A área à venda fica próxima à reserva indígena Yanowa, às margens da BR-364. A região-- uma floresta não protegida pela legislação-- é rica em mogno, uma das madeira mais caras do mundo. A empresa está pedindo entre US$4,5 milhões e US$11 milhões pela área. Ou seja, entre US$20 e US$50 por hectare, o que na Europa é muito pouco-- o metro quadrado em Genebra, por exemplo, custa o mesmo. No entanto, a Paranacre pagou apenas US$2 por hectare, e o projeto inicial da empresa era estabelecer um grande complexo agro-pecuário no local. A Paranacre aproveitou, na década de 70, a venda de terras a preços irrisórios pelo governo do Acre para se instalar na região. Foi uma das empresas que mais problemas tiveram com posseiros e seringueiros. A Paranacre dá preferência de venda a organizações ambientalistas e empresas estrangeiras dispostas a conservar ou explorar a terra sem destruir a floresta. Mas, segundo Nebel, quase todas as grandes ONGs internacionais contatadas até agora se esquivaram da proposta. "Há uma enorme diferença entre o discurso e a prática. Ninguém quer pagar o preço da proteção. A compra do terreno por uma ONG evitaria uma provável devastação da floresta quando a BR-364 começar a funcionar. A área beira um grande trecho dessa estrada e, na parte onde ela já foi asfaltada, houve destruição por causa da ocupação desordenada", disse. As ONGs, por sua vez, alegaram ter outras prioridades e algumas acharam "um absurdo" alguém imaginar que elas possam sair comprando pedaços de florestas em países estrangeiros para prevenir sua destruição (O Globo).