Os chefes militares resolveram voltar a falar de política, em público. Fizeram isso ontem, em Brasília (DF), diante do presidente Itamar Franco, que, além de elogiá-los, determinou aos ministérios da Fazenda e do Planejamento uma reavaliação dos cortes nos seus orçamentos para 1994. Eles falaram a pretexto de "tranquilizar" a tropa, cujas manifestações de insatisfação têm motivado relatórios diários aos comandos em Brasília. Compreendese sua inquietação, disse o general Benedito Leonel, chefe do
77059 Estado-Maior do Exército, na cerimônia de saudação aos oficiais recém-
77059 promovidos. E acrescentou: Mas os chefes estão atentos e se fazendo presentes com uma postura adequada, de modo a não romper o postulado maior que é a democracia". Leonel, expoente do conservadorismo no Exército, apelou para pleonasmos ("a conjuntura atual é episódica") e velhos conceitos de antigas doutrinas ("é impositivo defender a Nação em si mesma"), para ressaltar sua observação de que a crise acena com "uma perigosa generalização de descrédito nas instituições e nos chefes". Porém, fez questão de dizer que "ainda não é o momento de nos identificarmos com as angústias e preocupações de Marcus Flavinius", o centurião de Roma que, em carta a seu primo, sinalizava com "a cólera das legiões", no auge da crise do Império. Vocês escutaram, comentou o general Zenildo Zoroastro Lucena, ministro do Exército, em conversa com os jornalistas. Interpretem porque está tudo muito claro: a nossa vocação é democrática, a nossa preocupação é de que as instituições sejam mantidas", completou. A lógica cartesiana da caserna sugere que tal preocupação está sendo exposta porque foram identificados riscos. A apreensão é com valores como ética, moral, probidade, dignidade e trabalho honrado, indicou o brigadeiro Lélio Vianna Lobo, ministro da Aeronáutica, anfitrião do presidente Itamar Franco, em almoço com 180 oficiais-generais. Lobo acha necessário "sanear política, econômica e socialmente" o país. O presidente da República leu uma resposta sob a mesma premissa: "Para preservar o Estado democrático, teremos que restabelecer os seus alicerces éticos". Aproveitou para invocar "lealdade" ao comandante das Forças Armadas-- ou seja, ele mesmo. As manifestações dos chefes militares não foram bem-recebidas no Congresso Nacional. Integrantes da CPI do Orçamento ficaram preocupados. Temos problemas, comentou Fernando Freire (PPR-PI). "A situação chegou a um ponto-limite", completou Roberto Rollemberg (PMDB-SP). "É muito preocupante", disse José Genoíno (PT-SP). A repercussão negativa entre os políticos tem várias razões. A principal é de que eles se sentiram como alvo central. E esta é uma época de triste memória para o Congresso: no próximo dia 13 completam-se 25 anos da assinatura do Ato Institucional no. 5, que lançou o país numa ditadura (GM).