O crescimento desordenado na oferta de cursos superiores no Brasil durante o regime militar (1964-1975), com a criação de centenas de faculdades particulares, gerou distorções na formação do 3o. grau que estão trazendo sérios problemas para o desenvolvimento tecnológico brasileiro. O alerta é de Edlamar Batista Pereira, técnica de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA). O IPEA acaba de concluir o mais amplo levantamento já feito sobre o ensino superior no país. A conclusão mais alarmante do estudo é que as ofertas de cursos são mal distribuídas entre as diversas áreas de conhecimento, com excesso de estudantes em especialidades em que o mercado já está saturado, e são hoje de pouca relevância para o país, em detrimento de setores importantes no campo do desenvolvimento tecnológico. "De cada três estudantes universitários, dois estão em cursos de ciências humanas, sociais, líguas ou artes, e apenas um em áreas como engenharia, tecnologia, saúde, ciências exatas e biologia", conta Edlamar. Para ela, essa estrutura é uma bomba-relógio armada contra o desenvolvimento do país. "Mesmo reestruturando a oferta de cursos, os efeitos só serão sentidos em dez anos", diz. Outra preocupação é que o ensino superior está numa camisa-de-força há mais de uma década, sem possibilidade de se expandir ou mudar de perfil. Chegamos ao final da década de 80 com 1,518 milhão de alunos, elevando
76984 esse número para 1,540 milhão em 1990 e 1,570 milhão em 1991, conta. Seu estudo constatou que o perfil dos universitários também pouco mudou. São trabalhadores que frequentam cursos noturnos em escolas particulares
76984 da região Sudeste com currículos inadequados, e chegam ao mercado de
76984 trabalho sem qualificação profissional ou consciência do papel social que
76984 devem ter na comunidade. Existem hoje no país 893 instituições de ensino superior, sendo 99 universidades e 794 escolas isoladas, federações e integradas. A região Sudeste concentra 62% dessas instituições e 56% das matrículas, que em sua maioria (61%) estão em escolas particulares. As particulares se especializaram em oferecer cursos na área de humanas e ciências sociais, com baixo custo de instalações e manutenção, gerando boa parte da distorção na oferta de vagas. A pesquisadora do IPEA destaca que em consequência dessa estrutura viciada é cada vez maior o número de alunos que abandonam os cursos. "De cada 10 alunos que entram na faculdade, quatro abandonam o estudo antes do último ano, e os que ficam levam em média oito anos para concluir um curso", diz. A consequência é que o Brasil forma hoje por ano o mesmo número de alunos que no início da década passada. "Em 1980, formaram-se 226 mil alunos e, em 1991, apenas 230 mil, provando que o preceito constitucional de que a universidade é um direito de todo cidadão é um sonho", afirma. As causas da crescente evasão estão, segundo Edlamar, associadas principalmente à recessão, que leva os alunos a não poderem financiar seus estudos. A situação chegou a tal ponto que enquanto milhares de estudantes estão se degladiando nos vestibulares por uma chance de ingresso em curso superior, há hoje 90 mil vagas ociosas no 3o. grau, sendo 70 mil nas escolas particulares e 20 mil nas públicas (JB).