O DESCASO DO GOVERNO COM A AIDS

Entidades não-governamentais que atuam na luta contra a AIDS, como o Grupo de Apoio à Prevenção à AIDS (GAPA), Grupo Pela Vidda, Projeto Criança- AIDS e Fórum de ONGs DST/AIDS de São Paulo, denunciaram ontem, véspera do Dia Mundial de Luta Contra a AIDS-- que este ano tem como tema Tempo de Agir-- o descaso dos governos federal, estaduais e municipais em relação à epidemia. Segundo os representantes das entidades, as autoridades governamentais não implementaram nenhum programa ou campanha consistente de educação para a prevenção da doença nem distribuíram preservativos para a população em 1993. O Ministério da Saúde promoveu uma única campanha, no carnaval, com distribuição de preservativos. Faltou vontade política, assegurou Wildney Feres Contrera, vice- presidente e coordenadora do Programa de Educação do GAPA. "O governo não encarou a AIDS como uma grande epidemia mundial, pelo contrário, a doença foi banalizada", disse. Ela ressaltou que a denúncia não se refere "aos técnicos que trabalham no corpo-a-corpo no combate à AIDS, mas à vontade política dos dirigentes, especialmente no Estado de São Paulo, que detém 62% dos casos de AIDS no país". Depois de quase um ano de silêncio, o Ministério da Saúde lança hoje uma campanha de prevenção à AIDS destinada aos jovens. Dois filmes de TV de 30 segundos vão lembrar que é preciso usar camisinha para se evitar o vírus. Entre as denúncias está também a distribuição do AZT. "O medicamento é ministrado quando o doente já está numa fase adiantada e o paciente não responde mais", afirmou. Segundo ela, "gasta-se altas somas de dinheiro público em medida de baixa eficácia, reduzindo as chances da maioria das pessoas vivendo com AIDS sem recursos". Quanto ao financiamento de projetos pelo Banco Mundial (BIRD), segundo ela, as entidades não-governamentais tiveram seu trabalho prejudicado durante todo o ano devido às informações insuficientes e confusas por parte do Ministério da Saúde,
76896 União, estados e municípios. De 1980 a outubro deste ano foram registrados 43.455 casos de AIDS no Brasil. Só na cidade de São Paulo acumularam-se 14.979 casos, ou 34,5% do total do Brasil. Pelo menos uma das aproximadamente 20 vacinas anti-AIDS em pesquisa nos EUA, Canadá, Inglaterra, França, Suíça e Suécia será testada aqui. É a expectativa do Ministério da Saúde e a intenção da Organização Mundial de Saúde (OMS), que selecionou o Brasil entre os quatro países para os quais dará suporte e treinamento no futuro. A data para início dos testes ainda não foi definida, mas está confirmada que será em voluntários do Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP) e Belo Horizonte (MG). A falta de um tratamento alopático definitivo dificulta a ação das ONGs quanto aos métodos não-convencionais para AIDS. "Sempre passamos ao paciente os dados disponíveis e mostramos que ele não deve parar com o tratamento feito no hospital. Mas a decisão é dele", diz Jorge Beloqui, vice-presidente do Grupo Pela Vidda, de São Paulo. O GAPA age de forma semelhante. "Como não são estudados, ficamos sem saber se um eventual efeito positivo é do remédio ou emocional", reclama Wildney Feres Contrera. "O fato de os alternativos não serem submetidos a critérios científicos, dá margem ao charlatanismo, à exploração da boa-fé. Por isso, tentamos desmitificar e desestimulá-los", diz Adelmo Turra, presidente do GAPA de Porto Alegre (RS) (O ESP).