O maior e melhor negócio do Nordeste é a seca. Ela é uma desgraça na vida de 11,4 milhões de pessoas, que habitualmente vivem na miséria absoluta. Mas, para alguns, é uma fonte secular de negócios privados com o dinheiro público. Sem riscos e com altíssima rentabilidade. Tudo em nome dos flagelados. A indústria da seca sempre existiu, continua existindo e é muito forte, constata Luiz Gonzaga Nogueira Marques, diretor-geral do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), órgão criado há 84 anos e que é o símbolo histórico da intervenção do Estado na área mais pobre do país, o sertão nordestino. Auditorias e inspeções do Tribunal de Contas da União (TCU) realizadas no DNOCS mostram como funciona a Indústria da seca". É assim: -- US$43,9 milhões do Orçamento da União para este ano estão sendo destinados a 62 projetos de obras contra a seca absolutamente desconhecidos pelo governo federal. Os projetos são o resultado de emendas parlamentares ao Orçamento. -- Há 98 projetos de irrigação e de abastecimento de água no sertão totalmente abandonados. -- Verbas federais destinadas ao "Polígono das Secas" estão indo parar em cidades à beira-mar. -- Em 84 anos, o governo construiu 600 reservatórios de água em regime de cooperação, que acabaram transformados em propriedade privada. Há outros 295 açudes públicos. Entre esses, existem 150 sobre os quais o governo não tem nenhum tipo de controle. -- Constatou-se superfaturamento de US$302,3 milhões numa amostragem de nove obras em execução na Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. -- O governo está pagando, de forma antecipada, serviços superfaturados em até 40.521% sobre o preço de mercado. Há conluio com funcionários federais, acha o TCU, que nesta semana intimou 27 envolvidos. Entre eles está Marques, diretor-geral do DNOCS. Mas o DNOCS é apenas um dos pilares da Indústria da seca". Outro é a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE). No seu acervo estão 450 projetos privados, montados com dinheiro público, que estão abandonados ou mal funcionam. Pelo tempo de existência, mais de 15 anos, esses projetos, em tese, há muito já deveriam ser "auto-sustentáveis". Os donos conseguiram realizar até 10 sucessivas operações de "socorro financeiro" junto ao Tesouro Nacional para financiar a "ampliação" desses projetos. Auditorias do governo na SUDENE mostram uma sucessão de vícios na sua história-- do clientelismo às fraudes, da corrupção à venda de projetos para "lavagem" de dinheiro. "É outro exemplo acabado dessa aliança espúria feita entre as oligarquias econômicas e políticas do Nordeste", comenta Luiz Octávio Cavalcanti, ex-secretário da Fazenda e do Planejamento de Pernambuco. A seca atual é a maior do século-- anunciam a SUDENE e o DNOCS (GM).