A campanha contra a fome está entrando em sua segunda fase: a formação de um movimento nacional de combate ao desemprego. Várias prefeituras estão cadastrando os seus desempregados e criando frentes de trabalho. As secretarias estaduais de trabalho também se preparam para lançar a Campanha Nacional pelo Emprego. O sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, coordenador da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida e secretário-executivo do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), está propondo que "94 seja o ano do emprego". Para ele, "emprego é que acaba com a inflação". Desde o começo do movimento contra a fome, ele tem dito que só a luta contra o desemprego pode ajudar a resolver o problema da fome no país. Betinho tem se reunido com empresários e políticos para propor a criação de mais empregos. Segundo ele, o empresário Albano Franco, presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), se comprometeu a ajudar. O sociólogo afirma que é necessário gerar dois tipos distintos de empregos: os "emergenciais" e os "estruturais". Os empregos emergenciais são aqueles criados no curto prazo, para atender os indigentes do país. A forma mais rápida de se fazer isso seria empregar essa mão-de-obra em obras públicas. Segundo Betinho, são necessárias nove milhões de vagas desse tipo, número correspondente às famílias indigentes do Brasil. O sociólogo chega a sugerir o valor do salário: o equivalente a US$100. Segundo pesquisa da Fundação SEADE e do DIEESE, existem um milhão de desempregados apenas na região da Grande São Paulo. Ele entende que empregos estruturais são permanentes, criados a partir de uma reativação da economia. Este tipo de trabalho demora mais para se consolidar, devido à atual situação econômica do país. Algumas prefeituras estão se mobilizando na criação dos empregos emergenciais. A cidade de Santos (SP), por exemplo, começou na semana passada a cadastrar os desempregados. A idéia é empregar o maior número deles em serviços como o de limpeza das praias da cidade. A Secretaria Municipal de Promoção Social de Campinas (SP) está distribuindo passes de ônibus aos desempregados e os encaminha ao mercado de trabalho. Desde janeiro, a cidade cadastrou 5.434 desempregados e conseguiu colocação para 687 em empresas privadas. A prefeitura está promovendo cursos profissionalizantes para eles. A cidade também está gerando empregos através de obras públicas. Uma das empresas municipais faz obras de saneamento básico empregando os residentes da própria região dos serviços. Segundo Betinho, municípios como Maceió (AL), Vitória (ES) e Belo Horizonte (MG) também desenvolvem programas similares. Ele cita outras cidades: Silva Jardim (RJ), está construindo 50 casas populares, com mão-de-obra de ex-desempregados da cidade; Itumbiara (GO) também emprega os trabalhadores no plantio de 90 hectares de terra. Estes alimentos plantados serão utilizados na campanha contra a fome. As duas maiores centrais sindicais do país estão discutindo que tipo de apoio darão à campanha contra o desemprego. A CUT (Central Única dos Trabalhadores) e a Força Sindical concordam com a avaliação de que existem dois tipos de desempregados. Parte deles perdeu o emprego por questões estruturais-- basicamente porque as empresas enxugaram as suas estruturas-- e outra parte pela situação econômica. Para os sindicalistas, os primeiros não terão mais colocação no mercado de trabalho, coisa que pode acontecer com os outros. Para Enilson Simões de Moura, o Alemão, secretário-geral da Força Sindical, a campanha só terá sucesso a curto prazo se buscar formas de reciclar a mão-de-obra desempregada pelos problemas estruturais. No longo prazo, a Força Sindical defende a redução da jornada de trabalho e a criação de mais turnos de emprego (FSP).