De janeiro a dezembro deste ano, 656 crianças e adolescentes terão sido assassinadas no Rio de Janeiro, o que corresponderá a um crescimento dos níveis de violência contra o menor de quase 50% em relação ao ano passado. Estas conclusões fazem parte do estudo anual "Extermínio de Crianças no Brasil", feito por técnicos do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP). O estudo demonstra que de 1985 até o ano passado o número de crianças e adolescentes assassinados cresceu 161; enquanto no caso dos adultos, o crescimento no mesmo período foi de 76%. E segundo os técnicos do CEAP, a tendência é a violência contra o menor continuar crescendo: em 1992, a média mensal foi de 37 assassinatos no Estado do Rio de Janeiro; as projeções para este ano apontam para 54 menores mortos violentamente por mês. A escalada do extermínio, segundo estatísticas reunidas pelo CEAP, começou em 1987. Nos quatro anos do governo Moreira Franco, 1.385 crianças e adolescentes foram assassinados. Usando dados oficiais da Polícia Civil, o estudo mostra ainda um salto nos dois últimos anos em que as estatísticas oficiais já estão fechadas: em 1991, foram 306 menores mortos violentamente; já em 1992, este número chegou a 450. De acordo com a projeção feita pelo CEAP-- baseada em dados oficiais do primeiro semestre--, o número de menores mortos nestes três anos de governo Leonel Brizola deve chegar a 1.421. A maioria dos assassinados era negra (56%). E morava na capital (48,6%). O segundo lugar em número de crianças e adolescentes mortos violentamente é do Município de São Gonçalo, com 12,4%. Duque de Caxias, que vinha em segundo lugar nas estatísticas dos últimos anos, caiu para terceiro, ao lado de Nova Iguaçu, com 8,7%. Logo depois, vem Belford Roxo, com 4,6%. Neste último município da Baixada Fluminense, os técnicos do CEAP descobriram que a maioria dos menores assassinados era do sexo feminino (60%). Crianças e adolescentes brasileiros encontram a morte violenta dentro de casa. Esta foi a mais chocante conclusão a que chegaram os técnicos do CEAP, ao confrontarem os dados sobre os responsáveis pelos assassinatos de menores em oito estados (São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Ceará e Pará). Dos matadores identificados, a maior parte é formada por parentes das próprias vítimas (14%). Em seguida vêm policiais militares (12%) e vizinhos (8%). Em alguns estados, o índice de menores assassinados por parentes chega a níveis assustadores (38% em Minas Gerais e 27% no Rio Grande do Sul). Grupos de extermínio e traficantes têm uma parcela de culpa relativamente pequena na morte de crianças e adolescentes (1,5%). Com exceção do Espírito Santo, onde os grupos de extermínio foram apontados como responsáveis por 14% dos assassinatos e, ao lado da Polícia Militar, foram os principais acusados da matança de menores no estado. Qual é a cor da raça negra? Essa pergunta dá o tom da polêmica entre as Organizações Não-Governamentais (ONGs), que só este ano já divulgaram dois relatórios sobre extermínio de menores no Rio de Janeiro. O estudo do Instituto Superior de Estudos da Religião (ISER) afirma que os negros não são maioria entre os menores assassinados no Rio. De janeiro a julho deste ano, segundo a pesquisa, morreram 118 brancos (34%); 100 pretos (29%) e 89 pardos (26%). "Temos racismo na sociedade, mas não no que diz respeito ao homicídio doloso de menores", afirma o sociólogo Luiz Eduardo Soares, um dos autores da pesquisa. O secretário-executivo do CEAP, Ivanir dos Santos, discorda da pesquisa do ISER. O relatório de sua ONG aponta que somente no ano passado, 28% dos menores assassinados no município eram negros e 22% eram brancos. No estado, a mesma proporção: 22% são negros e 17% são brancos (O Globo).