O deputado federal João Alves (PPR-BA) usou como "caixa dois" uma conta bancária de sua empregada (Noelma) em Salvador (BA). Ele utilizou cheques desta conta para pagar apostas de loteria e "lavar" dinheiro. A conta é do Banco Holandês Unido. Ao depor na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Orçamento, o ex-assessor José Carlos Alves dos Santos disse que João Alves lhe contou que usava uma "preta velha" para cobrir contas clandestinas. No último dia 22, Alves negou na CPI a existência da empregada. Ontem, disse que usou cheques dela porque não queria parecer viciado em jogo. Noelma trabalha com João Alves há mis de 30 anos e é considerada a empregada de maior confiança do parlamentar. Ela mora em uma casa comprada pelo deputado na periferia de Salvador e só aparece para trabalhar quando o deputado está na Bahia. A Caixa Econômica Federal (CEF) concluiu que as apostas de Alves superam os prêmios recebidos. Foi divulgada ontem a gravação de uma fita cassete em que João Alves e José Carlos falam sobre modificação irregular no Orçamento. Alves diz que o interessado na mudança era o então deputado Afrísio Vieira Lima: "Ele está me explorando muito. Isso vai ficar muito caro...". A conversa é de 1984. Além de sugerir que, já naquela época, havia cobrança de propinas no Orçamento, a fita revela a intimidade de Alves com José Carlos, chamado várias vezes de "querido". A fita incrimina definitivamente o deputado no escândalo da corrupção. O ex-motorista do deputado João Alves, Eli Lopes Leitão, admitiu ontem em depoimento na CPI que fazia depósitos e saques bancários "vultosos" em nome do parlamentar. O motorista, que trabalhou durante quatro anos e meio com o deputado, afirmou também que levou várias vezes jogos de loteria para Alves. Leitão negou que tivesse dito ao deputado Luiz Salomão (PDT- RJ) que queria ser o novo Eriberto, numa referência ao motorista que teve um papel fundamental no Impeachment" do ex-presidente Fernando Collor de Mello. "Nunca levei dinheiro para parlamentar nenhum", afirmou Leitão. O motorista negou especialmente que houvesse levado "malas de dólares" para o deputado João Alves. O relator da CPI, deputado Roberto Magalhães (PFL- PE), declarou ao depoente que ele parecia "coato ou subornado". O proprietário da empresa de "lobby" Seval, Normando Leite Cavalcante, afirmou ontem na CPI que a liberação de verbas públicas para prefeituras só acontece quando "há a interferência direta de um parlamentar" junto a um ministro. Ele também disse que atualmente as empreiteiras são suas grandes concorrentes, pois passaram a "procurar as prefeituras para fazer projetos e pegar obras". O depoimento frustrou os integrantes da CPI, que esperavam arrancar de Normando declarações contundentes contra o deputado João Alves. O lobista limitou-se a confirmar que trabalhava para o parlamentar, acompanhando o andamento dos processos de interesse de prefeituras ligadas a Alves. Rogério Caroca Cavalcante, filho de Normando Cavalcante, foi funcionário da presidência do Senado durante seis anos, de 87 a 93. Ele tinha acesso a todos os documentos e correspondências que passavam pela presidência. A sua mulher, Flávia Santinoni Cavalcante, era funcionária da sub- secretaria de Orçamento do Senado na época em que o diretor era José Carlos Alves dos Santos. O primeiro resultado do debate em torno da quebra do sigilo bancário dos parlamentares foi a saída do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) da CPI do Orçamento. O deputado Aloizio Mercadante (PT-SP) requereu à CPI a quebra do sigilo de Jefferson-- um dos parlamentares citados por José Carlos como envolvidos no esquema. Ontem, Jefferson anunciou que estava se desligando da CPI. Para setorizar e aprofundar as investigações, o presidente da CPI, senador Jarbas Passarinho (PPR-PA), e o relator, criaram quatro sub-relatorias-- Patrimônio, Emendas ao Orçamento e Licitações, Subvenções Sociais e Assuntos Bancários. As sub-relatorias farão trabalho de pesquisa, com todo tipo de cruzamento de dados e informações, na tentativa de obter prova material da prática de corrupção na elaboração e execução do Orçamento (FSP) (JB).