Há no Rio de Janeiro um grande massacre de crianças de rua, sobretudo negras. Certo? Errado, segundo três antropólogos que pesquisaram dados da Polícia Civil e do Instituto Médico Legal (IML). Para eles, a afirmação acima reúne uma série de mitos, que são totalmente negados no relatório Homicídios dolosos praticados contra menores no Estado do Rio de
76393 Janeiro. Não é um massacre, não são crianças as principais vítimas, não são
76393 predominantemente negros e nem habitantes de rua os menores assassinados, afirma o antropólogo e cientista social Luiz Eduardo Soares, um dos autores da pesquisa. Juntamente com os antropólogos Hélio Raimundo Santos Silva e Cláudia Milito, ele elaborou no Núcleo de Pesquisa do Instituto de Estudos Religiosos (ISER) um trabalho que promete causar polêmica. A equipe usou como fontes inquéritos policiais e dados da Secretaria de Polícia Civil para conhecer a "contabilidade mórbida dos delitos criminais, particularmente dos assassinatos de menores". Como diz o relatório: "Uma tarefa dolorosa e irrealizável no sentido mais profundo". Os pesquisadores levantaram dados estatísticos com os quais pretendem derrubar "uma série de mitos". "Examinando os dados de 1991 a 1993, procuramos ver quem estava morrendo. Na infância (de zero a 11 anos), o número de homicídios está estabilizado e até em declínio nos últimos três anos. A faixa de 12 a 14 anos também está estável. O que cresce bastante é o número de homicídios dolosos de jovens de 15 a 17 anos", diz Luiz Eduardo. Os dados revelados na pesquisa, realizada como parte do projeto "Se essa rua fosse minha" (mantido por instituições como o ISER e o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas - IBASE) mostram que os assassinatos de crianças no estado caíram de 0,19 por 100 mil habitantes em 1991 para 0,17 em 1992. No ano passado foram registrados 18 homicídios dolosos de crianças em todo o estado. Já a morte de adolescentes de 12 a 14 anos subiu de 0,26 para 0,38, enquanto na faixa de 15 a 17 anos pulou de 1,78 para 2,75 por 100 mil habitantes. Não estamos negando a tragédia que significa a morte de cada criança.
76393 Mas não são elas as principais vítimas. O principal alvo de homicídio
76393 no estado é o jovem de 17 anos que mora em bairros pobres, situa o antropólogo. A pesquisa prossegue com revelações dramáticas. "Na infância, a família é a principal responsável pela morte de crianças, com um índice muito alto de crimes sexuais. Não são predominantemente crianças de rua que morrem. A`s vezes são menores de quatro anos, mortas pela própria família ou vizinhos, por questões terríveis de sociabilidade primária", constata Luiz Eduardo. Outro mito que a pesquisa pretende derrubar: o de que morreriam mais negros entre os menores assassinados. Pelos números oficiais e inquéritos policiais "morrem indiscriminadamente brancos, pretos e pardos", afirma o estudo. "Temos racismo na sociedade, mas não no que diz respeito ao homicídio doloso de menores", afirma Luiz Eduardo. Se os meninos de rua e as crianças não são as vítimas preferidas dos assassinos e sim os jovens do sexo masculino com 17 anos, de qualquer cor, o antropólogo lança uma hipótese sobre o principal responsável pela matança. "Tudo aponta na direção do tráfico de drogas e de toda a violência que o circunda", diz, acrescentando: "Não é preciso que o jovem seja traficante ou use drogas, basta participar de uma rede de sociabilidade, ou seja, ter amigos, para acabar sendo vitimado na saída de uma festa, por exemplo. A dinâmica perversa do tráfico de drogas, que inclui a violência policial em torno dele, acaba envolvendo inocentes". Outra descoberta surpreendente da pesquisa é que os números de homicídios dolosos em geral, embora ainda elevados, estão caindo nos últimos anos no Rio, exceto entre os adolescentes. Para os autores da pesquisa isso contraria a visão do Rio como expressão de desordem e declínio. "É preciso discutir seriamente a cultura do medo que existe no Rio, a convicção generalizada de que vivemos uma situação de guerra oculta e desgoverno. Este medo produz em nós todos reações agressivas antecipadas como o linchamento. E está criando uma imagem deteriorada do Rio para nós próprios e para todo país", preocupa-se o pesquisador. A violência doméstica é pior que a violência das ruas. A pesquisa
76393 destes antropólogos, feita para a Secretaria de Justiça e o IBASE,
76393 confirma denúncias que já fazíamos há muito tempo, diz o pediatra Lauro Monteiro Filho, diretor-executivo da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (ABRAPIA). Para ele, as crianças vão para a rua "fugindo da violência de casa, que é física, do abuso sexual e da carência afetiva e material quase total". O pediatra lembra um outro mito sobre o Brasil-- condenado mundialmente pela matança de crianças-- derrubado há algumas semanas: a divulgação de dados que mostram que nos EUA morre uma criança assassinada a cada três horas, o dobro do Brasil, onde ocorre uma morte a cada seis horas. No caso da violência familiar, diz Lauro Monteiro, a pobreza é a sua causa mais frequente. "Mas a violência doméstica ocorre na Bélgica, na Inglaterra, em países ricos e pobres", diz. Em dois anos, a ABRAPIA já recebeu 3.494 denúncias de maus tratos a crianças por telefone. Para Lauro Monteiro, a pesquisa sobre homicídios dolosos de menores do Rio "mostra que é preciso investir na família, nas crianças de casa, antes que elas sejam mortas" (JB).