SALESIANOS ACOBERTAM MASSACRE YANOMAMI

As missões salesianas que atuam no território yanomami na Venezuela impediram no mês passado uma investigação independente, organizada a convite do próprio governo de Caracas, do massacre de índios perpetrado um mês antes por garimpeiros brasileiros. Empenhados em manter o controle político que exercem há décadas na região e evitar a exposição pública de abusos e crimes cometidos contra os yanomamis, dos quais são autores e/ou cúmplices, os missionários católicos conseguiram expulsar fisicamente da área, no mês passado, cientistas norte-americanos que tentavam apurar os detalhes da matança a convite de ninguém menos do que o presidente da Venezuela, Ramon J. Velasquez. A denúncia foi feita no último dia 23, num artigo publicado na página de opinião do jornal "The New York Times", por um dos membros da comissão investigadora expulsa, o antropólogo Napoleon A. Chagnon, da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Ontem, Chagon reiterou as acusações e disse mais. Segundo o antropólogo, até 1991, os salesianos davam armas aos yanomamis para tirá-los de áreas inacessíveis e atraí-los para lugares mais próximos das três missões de evangelização que mantêm na região. A oferta de armas parou, mas suas consequências não. "Nos últimos cinco anos houve um surto de índios mortos por armas de fogo". E a política de contato forçado continua. Chagnon, que realizou vários estudos demográficos dos yanomamis venezuelanos nos últimos 30 anos, disse que os missionários salesianos da Venezuela intensificaram essa política no ano passado, quando o governo de Caracas criou o Estado de Amazonas e começou a retirar-lhes as amplas funções administrativas que exercem na região por convênio firmado em 1915. Isso, disse o antropólogo, "não só acelera o processo de corrupção cultural dos yanomamis venezuelanos, como agrava a explosão da taxa de mortalidade entre os índios nos últimos anos, porque o contato os expôs a doença para as quais não têm defesa e os salesianos não fornecem cuidados de saúde adequados". Chagnon revelou, também, que exatamente um ano antes da matança de setembro, que virou notícia de primeira página em jornais no mundo inteiro e reforçou a imagem de vilão do Brasil, um chefe yanomami chamado Dimanawa, de 35 anos, um índio aculturado criado pelos salesianos, comandou um ataque contra uma aldeia remota e matou a tiros nove yanomamis. Até agora, ninguém sabia desse episódio. O Brasil tem sido o bandido dessa história, mas na Venezuela, onde o
76367 impacto dos garimpeiros não é grande, a situação dos yanomamis é tão
76367 ou mais grave e os salesianos conseguiram até hoje acobertar tudo, afirmou o antropólogo. Os missionários salesianos na Venezuela são italianos, espanhóis, poloneses e chilenos. Somente em anos recentes que padres venezuelanos começaram a trabalhar nas missões. Ele disse que os salesianos do lado brasileiro da área yanomami atuam de forma mais benigna. As acusações do antropólogo revelam uma situação mais complexa que a divulgada pela imprensa internacional. As reportagens são geralmente centradas no lado brasileiro, onde vivem de oito mil a nove mil yanomamis. Na Venezuela, onde essa população é estimada em 14 mil, os índios enfrentam, além de ataques de garimpeiros, os efeitos daninhos das tensões políticas entre salesianos e, de um lado, missionários protestantes, com quem disputam o duvidoso direito de salvar suas almas; e, de outro, funcionários nomeados por Caracas (O ESP).