FAVELA DO RIO TEVE 722 MENORES MORTOS EM 15 ANOS

Entre 1976 e 1991, 722 adolescentes foram assassinados na Cidade de Deus, a maior favela plana do Rio de Janeiro (capital) a cinco minutos da Barra da Tijuca (zona sul). Os dados fazem parte de uma pesquisa ainda inédita, cujos resultados preliminares foram apresentados no 17o. Congresso da Associação Nacional de Pós-graduados em Pesquisa e Ciências Sociais (Anpocs), que terminou ontem em Caxambu (MG). Após dois anos de pesquisas e entrevistas com favelados e traficantes, a autora do trabalho, a antropóloga Alba Zaluar, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), concluiu que não existem no Rio os chamados grupos de extermínio. "São, antes de tudo, grupos de extorsão", afirma. "Matam porque as vítimas deixaram de cumprir a sua parte nos tratos". Ela ressalta que nem todos os assassinatos ocorridos na favela foram praticados por esses grupos. Afirma, no entanto, que a ação dessas milícias-- policiais ou ex-policiais, segundo ela-- contribui para aumentar significativamente o número de assassinatos. "Para pagar a polícia, o delinquente pratica novos roubos e até mata", diz. "É uma corrente sem fim". Na pesquisa, Alba faz uma comparação entre as polícias do Rio e a de São Paulo. Para ela, ao contrário do que ocorre com as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (ROTA) na capital paulista, a polícia fluminense "não mata para combater o crime, o que já seria altamente condenável". Ela garante ter ouvido de vários traficantes e delinquentes relatos de pressões para que transferissem para policiais imóveis e carros conseguidos com o dinheiro do crime. A antropóloga está convencida de que foi esse o motivo que desencadeou a guerra travada atualmente nas favelas. Ao participar de um debate sobre violência e cidadania, Alba Zaluar defendeu a tese de que a escalada do tráfico no Rio faz parte da internacionalização da economia. Segundo ela, os cartéis de Cali e Medellín, da Colômbia, foram levados a conquistar mercados alternativos após a operação contra drogas dos EUA (O ESP).