POPULAÇÃO FOGE DA VIOLÊNCIA METROPOLITANA

A violência e a deterioração da qualidade de vida atingiram um ponto insuportável em São Paulo. É assim que pensam milhares de famílias que deixam anualmente a capital do estado em busca de uma vida melhor nas cidades do interior. Somente na década de 80, São Paulo perdeu mais de 900 mil habitantes, diferença entre os migrantes que vieram para a cidade e os que a abandonaram. Essa foi a primeira vez na história que São Paulo apresentou um saldo migratório negativo, revelando uma nova e crescente tendência de evasão dos grandes centros. O estudo dessa fuga em massa da cidade foi feita por Sônia Regina Perillo, analista de projetos da Diretoria Adjunta de Estudos Populacionais da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE), em trabalho baseado na análise dos dados preliminares do Censo de 1991. O estudo revela ainda que a Região Metropolitana de São Paulo, que reúne outros 37 municípios próximos à capital, teve um fluxo migratório negativo de 433 mil pessoas, e que a migração cresceu de forma homogênea nas cidades do interior do estado. Desde a década de 40, a capital paulista vinha crescendo às custas dos migrantes que buscavam oportunidade de trabalho no maior pólo industrial do país. Entre 1940 e 1950, São Paulo ganhou 871 mil novos habitantes, dos quais 628 mil (72%) eram migrantes. A participação de migrantes no crescimento da população caiu para 45% na década de 80, quando a cidade recebeu mais 1,1 milhão de habitantes de outras cidades, mas ninguém esperava uma reviravolta tão drástica, a ponto de haver uma perda migratória de quase 100 mil por ano. O êxodo metropolitano teve uma grande repercussão no crescimento da cidade de São Paulo. A taxa de crescimento populacional histórica em torno de 5% despencou para apenas 1% entre 1980 e 1991. A Região Metropolitana também teve uma queda significativa na taxa de crescimento populacional, que caiu de 4,46% no período 1970/1980 para 1,76% no período 1980/1991. Das demais 14 Regiões Administrativas do estado, nove tiveram taxas de crescimento superior à média estadual (2,07%) e as cinco que ficaram abaixo desse valor tiveram taxas de crescimento populacional bem maiores do que na década anterior. A pesquisadora vincula essa mudança de rumo à industrialização do interior. "O interior de São Paulo é a segunda maior concentração industrial do país, só perdendo para a Região Metropolitana de São Paulo", diz Sônia Perillo. "Ao que parece, a emigração da Região Metropolitana ultrapassa os limites do estado e até do país", observa. Ela diz ainda que esse não é um fenômeno isolado e se repete nas outras regiões metropolitanas do Brasil. "Em meio à crise profunda que assola o país faz-se necessário a concentração de esforços para entender essa tendência", diz (JB).