O Movimento dos Sem-Terra (MST), criado nos anos 70 na Região Sul, hoje existe de forma organizada em 18 estados, elege deputados, planeja ocupações com meses de antecedência e conta com três centros de treinamento, onde os futuros líderes recebem desde noções de cooperativismo até aulas de administração de empresas. Um desses núcleos é a Escola Nacional de Formação, que funciona no Centro de Pesquisas e Formação do Contestado, em Caçador (SC). Os outros dois são o Centro de Tecnologias Alternativas Populares e o Departamento de Educação Rural, em Braga (RS). Os centros contam com a participação dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais e com a colaboração de universidades como a Federal do Rio Grande do Sul e a Federal de Pelotas, cujos agrônomos auxiliam na orientação e capacitação dos colonos, ensinando novas tecnologias. A força política angariada pelo movimento consolidou um relacionamento estreito com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e com os governos estaduais do Sul. O deputado estadual do PT Antônio Marangon, eleito pelo MST em dobradinha com o deputado federal Adão Pretto (RS), foi um dos primeiros assessores do movimento no início dos anos 80 e explica que a organização dos filhos de agricultores foi a base das atuais lideranças. Nenhuma conquista do movimento acontece por acaso. Cada passo merece minucioso planejamento. A área escolhida tem de ser improdutiva, estar em litígio na Justiça ou sendo desapropriada pelo INCRA. Nos ônibus fretados para levar os sem-terra na madrugada da ocupação não faltam foices, facões, machados e enxadas. Caminhões e tratores com suprimentos vão na frente. O local escolhido precisa ter água e sombra suficiente para abrigar as famílias e ser bem protegido. Postos de observação são armados com trincheiras de sacos de terra e faixas e bandeiras indicam a presença do MST no local. Essas preocupações começaram a ser tomadas depois de várias ocupações nas quais fazendeiros da União Democrática Ruralista (UDR), sempre armados e protegidos pela polícia, despejavam os colonos dando tiros para o ar ou agredindo-os com cavalos e pontapés, protegidos por outros fortemente armados. Para o presidente regional da UDR no Rio Grande do Sul, João Ferreira, o MST é "o braço armado da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e está executando uma verdadeira operação de guerrilha". Segundo ele, o comando dos colonos é formado "pelos 40 da Nicarágua", um grupo seleto, treinado pelos "guerrilheiros sandinistas" e que são "os verdadeiros coronéis durante as invasões de terras alheias" (O ESP).