Entre as entidades não-governamentais que desenvolvem atividades relacionadas com a AIDS, nenhuma se destaca tanto quanto a Igreja Católica. Em São Paulo, de um total de 30 entidades, 12 estão ligadas à arquidiocese, que no ano passado lançou um alerta geral à comunidade católica, chamando a atenção para o alastramento da epidemia. "Precisamos evitar o preconceito e abrir espaço para a verdadeira solidariedade", disse o cardeal dom Paulo Evaristo Arns. Hoje, as atividades da Igreja variam do recolhimento de crianças abandonadas e portadores do vírus HIV, encaminhadas às chamadas casas de apoio, ao atendimento domiciliar de doentes carentes. O envolvimento da Igreja com a AIDS, porém, ocorreu de forma lenta. No início, com a epidemia restrita aos homossexuais, havia religiosos que atribuíam a ela um sentido bíblico. O caso mais notável era o do cardeal do Rio de Janeiro, dom Eugênio Sales. Em artigos na imprensa e no programa de rádio "A Voz do Pastor", dizia: "A doença surge como imposição que atinge em cheio a inversão sexual, a troca de parceiros, uma interminável lista de assuntos condenados pela legislação divina". Foi nos anos de 1987 e 1988 que a Igreja, particularmente em São Paulo, começou a envolver-se mais com a questão, preocupada não apenas com as dimensões da epidemia, mas também com a carga de preconceitos que pesava sobre os doentes. Por essa época, circulava entre religiosos brasileiros um documento preparado por bispos americanos, no qual se afirmava que o doente de AIDS deve ser tratado sem moralismo, mas com toda a misericórdia. Embora insista que o trabalho de prevenção da doença seja prioritário, a Igreja tem mais dificuldades nesta área do que no atendimento aos doentes. A principal razão é o fato de não recomendar o uso da camisinha, optando pela indicação da abstinência sexual. Na prática, porém, várias entidades que trabalham com AIDS driblam a orientação da Igreja da seguinte maneira: embora não façam propaganda, associam suas atividades às de entidades que distribuem camisinhas (O ESP).