Acabar com a fome no Brasil não é tarefa que dependa apenas do incremento da produção agrícola, tampouco da adoção sistemática de programas assistencialistas. A saída para o quadro de indigência a que chegou o país exige, além de medidas macroeconômicas que promovam aumento real da renda da população, mudanças profundas na política agropecuária, com a revisão inclusive das prioridades de plantio, com vistas à normalização do abastecimento de gêneros de primeira necessidade. Esta foi a conclusão a que chegaram as pesquisadoras do Centro de Estudos Agrícolas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Eliana Conde Barroso Leite Víglio e Irene Raguenet Troccoli, no trabalho "O Paradoxo da Alimentação no Brasil". A pesquisa, que inclui os principais produtos de largo consumo no país-- arroz, feijão, milho, mandioca e carnes bovina e de aves--, pretende analisar os diversos fatores que influenciam a oferta e a demanda no mercado interno, como preços pagos aos produtos, política de subsídios e hábitos de consumo da população. Mais do que a disponibilidade de alimentos, diz a economista Irene Troccoli, as atenções devem estar voltadas para o uso que se faz dos mesmos. "Fala-se em supersafra de grãos, mas o que isto significa? Não necessariamente que haverá maior oferta no mercado interno, e muito menos que a população terá condições de comprá-los, uma vez que esta vem sucessivamente perdendo o seu poder de compra". Por este raciocínio e pela magnitude que o problema vem assumindo (segundo o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas - IPEA, 22% da população encontram-se em estado de indigência), fica claro, como expõem as pesquisadoras, que a adoção de programas assistenciais, apesar de necessária como medida emergencial, não será suficiente para enfrentar a fome no Brasil. O sucesso para uma política global de abastecimento está vinculado à
76357 adoção de medidas macroeconômicas, necessárias ao equacionamento dos
76357 níveis de demanda. Sem elas, pouco efeito surtirá uma adequação das
76357 políticas orientadas para a produção e circulação de alimentos, afirma o estudo. Mas, enquanto a origem do problema não é atacada, é possível, segundo as pesquisadoras, traçar estratégias alternativas de abastecimento. O estímulo ao consumo do milho e seus derivados, neste caso, poderia ocupar papel de destaque, pela facilidade de adaptação desta cultura nas diversas regiões do país e pelo baixo custo de produção. Isto, no entanto, envolve dois pontos de difícil solução, pois implicaria redirecionar as safras-- atualmente em sua maior parte destinadas à indústria de rações animais-- e promover um retorno a hábitos alimentares modificados. A situação da demanda do milho no país foi caracterizado no estudo como esdrúxula, pois sua destinação para a alimentação humana é muito baixa quando comparada à de outros países pobres na disponibilidade de cereais alternativos, como o trigo. "De acordo com a FAO (órgão das Nações Unidas para a alimentação), na média do triênio 84-96, o consumo humano de milho no México representou quase 70% do consumo total, enquanto no Peru o percentual foi de 52%. Já para o Brasil, este consumo foi avaliado em apenas 20%", revela o estudo (JC).