INTEGRAÇÃO ENERGÉTICA NO MERCOSUL

A integração energética entre os países-membros do MERCOSUL não se dará sem que antes alguns entraves sejam resolvidos, pois os principais envolvidos-- Brasil e Argentina-- têm economias instáveis e descontrole sobre seus respectivos problemas macroeconômicos. A conclusão é do representante da Fundação Bariloche, Daniel Bouille, que presidiu ontem, no Rio de Janeiro (RJ), o debate Consequências da Integração Energética na América Latina e no Cone Sul, durante o encerramento do 6o. Congresso Brasileiro de Energia. Bouille lembrou que, com a tendência mundial de formação de blocos econômicos, a energia tem sido o primeiro fator de integração e citou como exemplo o tratado de carvão e do aço firmado entre os países da Comunidade Européia e o acordo de interação de energia elétrica entre EUA e México, além do tratado de importação de gás boliviano pela Argentina. Para ele, o problema central do programa de integração na América Latina é a modificação institucional desses países: "Não é possível pensar em interação energética sem antes pensar nos problemas macroeconômicos. As economias dos países da região têm tamanhos absolutamente distintos e, se no Cone Sul fosse incluídos países como o Chile e a Bolívia, a assimetria seria ainda maior", disse. A implantação de contratos a longo prazo com benefícios para todas as partes envolvidas e a adoção de políticas transparentes de negociações que envolvam diretamente países produtores e consumidores de energia é defendida por ele. De acordo com Bouille, a possibilidade de as economias dos países do MERCOSUL serem abertas a investidores estrangeiros poder dar um incremento ao setor energético, sendo "este sim um desafio muito grande". Entre os dilemas a serem superados, o representante da Fundação Bariloche sugeriu ainda a implantação de sistemas cooperativados em indústrias de energia elétrica ou de produção de gás, pois desta forma, "todos ganham de alguma maneira e ninguém se beneficia em particular". Quanto à questão empresas públicas e/ou privadas, Bouille disse que num sistema competitivo o modo com que se avalia o intercâmbio existente entre empresas estatais com baixa rentabilidade e empresas privadas com altas taxas de retorno deve ser diferente. Outra sugestão foi a criação de uma planificação estratégica de longo prazo. Ele entende que as atuais políticas não expõem claramente de onde provêem os incentivos. Bouille teme, no entanto, que um planejamento energético de longo prazo seja posto de lado em favor de uma cultura empresarial: "É necessário aprofundar a coordenação política do setor energético e debater à exaustão os níveis tarifários que serão praticados, e de que forma se dará a prestação de serviços. É importante também criar um modelo de gestão característico para o Cone Sul, e não simplesmente copiar os exemplos que ocorrem no mundo, pois nós vivemos paradigmas diferentes" (JC).