CONTRADIÇÕES INCRIMINAM JOÃO ALVES

Em depoimento de mais de oito horas na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Orçamento, o deputado Jaõo Alves (PPR-BA) negou todas as acusações de corrupção, mas caiu em contradição. Alves afirmou que não conhecia Normando Cavalcante, dono da empresa Seval, que intermedeia liberação de verbas federais para prefeituras, mas depois se traiu: "Devo ter indicado a Seval para alguns". Alves chegou a provocar risos quando disse: "Depois que deixei a Comissão do Orçamento, Deus me ajudou e ganhei muito dinheiro". A Caixa Econômica Federal (CEF) está convencida de que o deputado João Alves usou apostas de loteria para lavar o dinheiro que obteve ilicitamente. Ele esperava os prêmios ficarem acumulados para investir alto nas apostas, com retorno do capital praticamente certo. Assim, ganhou 56 vezes na loteria e legalizou o dinheiro da corrupção. João Alves preferiu não prestar juramento ao depor e disse que não aceita se submeter a um detector de mentiras. A CPI decidiu quebrar o sigilo telefônico de João Alves, nos últimos cinco anos. Os deputados Luiz Salomão (PDT-RJ) e Carlos Luppi (PDT-RJ) conversaram com um ex-motorista de João Alves, Eli Leitão, que disse ter levado malas de dinheiro "para todos esses deputados que estão citados aí". Normando Leite Cavalcante, ex-proprietário da Seval, empresa acusada de intermediação de verbas para municípios, afirmou ontem que prestou serviços a várias prefeituras indicadas pelo deputado João Alves. "Eu mantinha vários contatos com o deputado, sempre que era necessário informá-lo sobre o andamento dos processos de liberação de verbas", disse. Antes de aparecer ontem na CPI, Cavalcante disse que está decepcionado com as acusações feitas por Alves, com quem não fala há mais de um ano. "O deputado está me culpando para se defender", afirmou. O alto número de prêmios obtidos nas loterias pelo deputado João Alves pode ser resultado de uma estratégia de "lavagem" de dinheiro. Quem joga para "lavar" geralmente investe mais do que ganha, mas, em compensação, obtém uma comprovação legal para o dinheiro conseguido em atividades ilícitas. Há fortes indícios no mercado financeiro de Brasília (DF) de que Alves realizou volumosas apostas na casa lotérica Camisa 10, situada na Asa Sul de Brasília. Em depoimento na Polícia Federal, o ex-assessor do Congresso, José Carlos Alves do Santos, disse que a comissão do deputado João Alves na liberação das chamadas verbas sociais para entidades que em alguns casos são "fantasmas", era de 20%. Santos indicou os deputados Flávio Raunhetti (PTB-RJ) e Feres Neder (ex-suplente de deputado pelo PTB-RJ), como dois dos primeiros manipuladores de emendas à LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), em 1988. Foi nesse ano que surgiram no Orçamento as subvenções globais. Através de emendas, os parlamentares garantiam o investimento em determinadas áreas em obras que seriam executadas por empreiteiras pré-fixadas. Mesmo que a CPI do Orçamento confirme que deputados e senadores agiam de forma corrupta na distribuição de verbas não haverá cassação automática. A perda de mandato dos envolvidos depende de processos longos na Câmara e no Senado. A decisão sobre a cassação é tomada pelo plenário em votação secreta e exige aprovação da maioria absoluta (O ESP) (FSP) (JB) (O Globo).