AIDS ATINGE PADRES EM SÃO PAULO E NO RIO DE JANEIRO

A hierarquia católica brasileira vive uma angustiante contradição diante da epidemia de AIDS. De um lado se destaca na missão de socorrer e apoiar as pessoas que já desenvolveram a doença. De outro, dificulta o trabalho de prevenção, pois condena a divulgação do uso da camisinha e esconde, como um vergonhoso segredo, os casos de religiosos que se contaminaram com o vírus. Só na área da Grande São Paulo, pelo menos 15 padres morreram vítimas da AIDS nos últimos cinco anos. O número foi apurado por meio de entrevistas com religiosos e profissionais da área de saúde, além de pesquisas em cartórios. No universo de 1.420 padres da região pesquisada, as 15 mortes equivalem a 1% do total, o que é um índice muito alto, mesmo para os padrões brasileiros. Não se incluem aí os padres doentes e os contaminados que ainda não apresentaram sintomas. No Rio de Janeiro, um dos diretores do Hospital Gaffrée Guinle, especializado no tratamento da AIDS, revelou que apenas ele já tratou de cinco padres contaminados pelo vírus e que dois deles morreram. Entre os registros de mortes por AIDS no meio religioso, um dos mais recentes e ilustrativos do preconceito em relação à doença é o do padre Arnaldo dos Santos, de 36 anos. Ele morreu no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo (capital), no dia 11 de setembro último. Até hoje, em Várzea Paulista, cidade de 70 mil habitantes, vizinha a São Paulo e onde o padre Santos era vigário, os fiéis não sabem da ligação de sua morte com a AIDS. A informação oficial é de que ele morreu de menigite. E quem se encarregou de divulgar isto foi o bispo de Jundiaí, dom Roberto Pinarelli de Almeida, os colegas religiosos e a família. Ao ser procurado para uma entrevista sobre a contaminação de padres pelo vírus da AIDS, o cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, respondeu, por um assessor, que prefere não falar sobre o assunto. Ao explicar as razões do silêncio de seu superior eclesiástico, o monsenhor Arnaldo Beltrami, vigário episcopal de comunicações da arquidiocese, apresentou três razões: os casos existentes não chegam a preocupar a hirarquia religiosa, há o risco de se caracterizar erroneamente os padres como grupo de risco e, finalmente, o cardeal preferiria que se destacasse mais o apoio que a instituição presta a doentes (O ESP).