UDR ACUSA DISCRIMINAÇÃO NA CAMPANHA CONTRA FOME

A União Democrática Ruralista (UDR) está disposta a boicotar a campanha nacional de combate à fome, coordenada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, secretário-executivo do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), caso a contribuição da entidade seja recusada por motivo ideológico. O representante da bancada ruralista na Câmara, deputado Ronaldo Caiado (PFL-GO), acusa o camando da campanha de beneficiar o PT, afugentando outros partidos e segmentos sociais. "Desconfio que eles querem fazer demagogia e populismo com os alimentos do governo", disse. A campanha de combate à fome recebeu do governo federal 150 mil toneladas de alimentos (arroz, milho e feijão), que serão distribuídos à população carente do Nordeste durante quatro meses. A distribuição ainda não começou por falta de transporte e poderá atrasar, porque são necessárias 5.500 viagens, em carretas, ou 10 mil viagens em caminhões trucados, o que significa um custo muito alto. Há quase um mês, segundo Caiado, a UDR tenta colocar sua frota de caminhões à disposição da campanha mas esbarra em obstáculos que, ele acredita, são de natureza ideológica. O sociólogo Herbert de Souza recebeu a denúncia com ironia: "Onde já se viu veto ideológico ao feijão?". Ele confirmou as divergências com Caiado e a UDR no plano político, mas garantiu que toda colaboração é bem-vinda. "Só não aceito conversar com PC Farias e a camarilha que assaltou os cofres públicos", disse. Entidade conservadora, a UDR lidera a luta contra a reforma agrária. Mesmo assim, Betinho, um notório militante de esquerda, disse estar disposto a conversar com Caiado e nega qualquer conotação político-partidária do movimento. "A grande novidade dessa campanha é que ela não tem dono", disse. Para o sociólogo, o êxito da campanha tem gerado ciúmes e incompreensões na direita e em segmentos da esquerda. "Não quero dizer que seja o caso do deputado", disse Betinho, alegando que soube apenas por alto do interesse dos ruralistas em colaborar. "Foi uma grata surpresa saber que a UDR se preocupa com a fome", disse Betinho, afirmando que espera um comunicado ou um convite de Caiado para conversarem. Caiado crê que os gestos do comando da campanha até agora têm sido de recusa e está disposto a levar a briga às últimas consequências. Ele já falou com o presidente Itamar Franco e amanhã levará a queixa dos ruralistas ao bispo de Duque de Caxias (RJ), dom Mauro Morelli, presidente do Conselho de Segurança Alimentar (CONSEA), integrante da campanha. Caiado conta com o apoio do deputado Augusto Carvalho (PPS-DF), que faz uma ponte para remover os obstáculos e integrar a UDR à campanha contra a fome. Barriga vazia não tem ideologia, justificou Carvalho, alegando que o mutirão contra a fome e a miséria deve envolver toda a sociedade. Veemente, Caiado disse que tentará mais uma rodada de entendimentos, a começar por dom Mauro Morelli. Depois irá ao novo ministro da Agricultura, Dejandir Dalpasquale (PMDB-SC) e à nova diretoria da CONAB, estatal responsável pelos estoques reguladores do governo, de onde sairão os alimentos. Informado de que o PT tem 1,8 mil comitês formados nas comunidades do Nordeste para apadrinhar a distribuição dos alimentos, Caiado advertiu que, se isso ocorrer, denunciará o partido por corrupção eleitoral à Procuradoria Geral da República e no Congresso Nacional. "Eles viviam combatendo o coronelismo e os currais eleitorais, mas agora estão querendo repetir essas práticas", acusou. Caiado acredita ser possível mobilizar 300 carretas para transportar os alimentos (JC).