CIDADE PAULISTA DERROTOU A FOME

O "Mapa da Fome 3", do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), revelou uma ilha de prosperidade, com habitantes bem alimentados. Fica em Pradópolis, na região de Ribeirão Preto, no Estado de São Paulo, batizada por sua riqueza de "Califórnia brasileira". A 330 km da capital paulista, Pradópolis é a cidade com o menor número de indigentes do país, segundo o IPEA, também responsável pelo levantamento dos 32 milhões de miseráveis no Brasil, dado que chocou o país e levou a população a deflagrar a inédita campanha contra a fome. Em Pradópolis, apenas 4% das 2.425 famílias do município têm rendimento de no máximo US$113,13 (cerca de CR$17 mil). O valor corresponde, segundo padrões das Nações Unidas, a uma cesta básica com a quantidade mínima necessária de calorias e proteínas para a família toda. Com 162 km2, Pradópolis vive da cana-de-açúcar. A Norte, Sul, Leste ou Oeste, os horizontes da cidade são sempre os mesmos: plantações de cana até perder de vista. De seus 9.865 habitantes, dois mil trabalham na Usina São Martinho de Álcool e Açúcar e na Agropecuária Monte Serrano-- quase 30% do quadro de empregados. Dados da prefeitura mostram que o índice de desemprego não ultrapassa 3%. Segundo o prefeito Agenor Pavan (PFL), o orçamento municipal é de US$3 milhões por ano. Pradópolis é 100% urbanizada. Toda a cidade é abastecida de água (tratada com cloro e flúor), luz e esgoto. Além disso, 67% dos habitantes da cidade vivem em casa própria. Ao contrário da maioria dos filhos de trabalhadores rurais, as crianças mais pobres de Pradópolis não vão para a roça com os pais. Na cidade, há uma creche que só recebe filhos de mulheres que trabalham fora, três pré-escolas e duas escolas estaduais. Os alunos de Pradópolis são quatro mil. A prefeitura leva, em três ônibus, as crianças da área rural para a escola. Além de tudo isso, a população tem assistência dentária e médica gratuita. O IPEA baseou-se em dados do Censo de 1991 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) para classificar 4.491 municípios segundo o número de famílias indigentes (8.976.260). Do lado oposto de Pradópolis está Antônio Almeida, no Piauí, com o maior número de famílias indigentes: 853 (73,8%). A linha de indigência, explica Lúcia Panarrielo, técnica de pesquisa e planejamento da Coordenação de Política Social do IPEA, é medida pelo rendimento familiar. "Abaixo da linha de indigência estão todas as famílias cujo rendimento dá no máximo para comprar uma cesta básica", diz ela. O valor e os produtos da cesta básica são estipulados pela ONU. Valores e produtos variam de região para região. Por exemplo, na Região Metropolitana de São Paulo, US$128,09, e na do Rio de Janeiro, US$124,29. Em Antônio Almeida, esse valor sobe para US$138,48. A cidade do Rio de Janeiro, segundo o IPEA, é o município do estado com o menor número de famílias indigentes: 10,2% (197,2 mil famílias). Os filhos de São Sebastião do Alto estão abandonando a cidade. Sem uma única indústria, com raríssimo comércio e apontado pelo IPEA como o município mais pobre do Estado do Rio de Janeiro, São Sebastião do Alto- - com 10.800 habitantes na década de 80-- perdeu, em 10 anos, 2.800 moradores, que foram tentar a vida em cidades vizinhas. Hoje, apenas 8.098 pessoas vivem no município, onde um ditado foi criado exclusivamente para ilustrar esse êxodo: "Quando uma criança nasce em São Sebastião do Alto, o pai foge da cidade". O município subsiste, basicamente, às custas do repasse de verbas federais e estaduais. Sua arrecadação própria em setembro foi de CR$16.700,00-- pouco mais de um salário-mínimo. A realidade social de Recife (PE) é triste: nada menos do que 48% dos seus 1.296.000 habitantes são considerados pobres, de acordo com um documento que acaba de ser publicado pela prefeitura. Isso quer dizer que 542 mil pessoas da capital não têm acesso à cesta básica. O quadro, no entanto, é ainda pior: segundo o "Mapa da Fome 3", 73 mil famílias-- 470 mil pessoas no total-- vivem em situação de indigência, ou seja, completa miséria (JB) (O Globo).