BETINHO QUER PROMOVER "NATAL SEM FOME"

A próxima meta da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida, o programa de combate à fome, é encher a barriga de cerca de 32 milhões de brasileiros na semana do Natal. Segundo o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, secretário-executivo do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), coordenador da campanha, o Natal Sem Fome será "a primeira semana desde 1500 em que ninguém passa fome no Brasil". O Natal Sem Fome consiste num esforço de mobilização nacional para que, em dezembro, sejam coletadas nove milhões de cestas básicas para serem distribuídas às famílias em estado de miséria. Além de comida, as cestas devem ter brinquedos. Os dois principais eventos programados por Betinho são o Auto do Natal Sem Fome, a ser montado em milhares de cidades, e o Trem da Solidariedade, que sairá de Porto Alegre (RS) em direção ao Nordeste, levando alimentos não-perecíveis à região da seca. O Auto começará a ser escrito esta semana pelos compositores Aldir Blanc e Guinga e pelo teatrólogo Aderbal Freire Filho. A idéia de Betinho é que o Auto seja montado em todas as cidades do Brasil no dia 20 de dezembro, com artistas locais, marcando o início do Natal Sem Fome. Os três mil comitês que Betinho imagina já haver na campanha serão estimulados a promover shows e atos públicos, além de montar o Auto. O Auto, segundo Betinho, vai "mergulhar fundo na cultura brasileira" e refletir os modelos de desenvolvimento ao longo da história. "Temos que descobrir que cultura é essa que gerou deliberadamente 32 milhões de miseráveis", disse. Antes mesmo de completar sete meses, a Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida já conta com o trabalho voluntário de pelo menos 30 mil pessoas em todo o Brasil. Estima-se que a campanha já tenha envolvido no país mais de dois milhões de pessoas e arrecadado aproximadamente meio milhão de toneladas de alimentos. A organização da campanha, comandada por Betinho, define como secundária a contabilização exata das doações. A Ação da Cidadania foi concebida para funcionar de forma descentralizada e com autonomia para os mais de três mil comitês espalhados pelo Brasil. "Mais importante que a decisão de dar comida, é a consciência e a prática da cidadania", diz Betinho, acrescentando que "é essa cidadania que vai erradicar as causas da miséria". A Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida vai entrar em uma nova fase no próximo ano. Segundo Betinho, a prioridade da campanha em 94 será a luta pela geração de empregos. Para isso, os comitês devem procurar as prefeituras, que, segundo o sociólogo, podem ser o carro-chefe da campanha. A intenção de Betinho é convencer os prefeitos a reformularem seus orçamentos para priorizar obras que ocupem o maior número possível de mão-de-obra, com salários em torno de US$100 (CR$14,6 mil). "Se todos os prefeitos repensarem o orçamento sob a ótica de empregos emergenciais, seguramente dá para criar muitos empregos no país", disse Betinho. O PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado), que tem apenas um deputado federal e um vereador em todo o país, partiu para a oposição à campanha contra a fome. O partido está distribuindo panfletos e jornais contra a movimentação da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida porque não acredita que a campanha dê resultados. João Ricardo Soares, da Executiva Nacional do PSTU, critica a "aliança" de Betinho com "grandes empresários" e o governo. O deputado do partido, Ernesto Gradella (SP), tem feito discursos na Câmara contra a campanha. O PSTU está elaborando um programa próprio de combate à fome. Betinho afirma que o PSTU "não sabe o que está acontecendo" com relação à campanha. Sobre a suposta "aliança" com os governos, ele diz que nenhuma pessoa no Brasil pode ignorar a existência do Estado (FSP).