MERCOSUL À MARGEM DA CEE E DO NAFTA

O MERCOSUL corre sérios riscos de ficar à margem do comércio mundial nos próximos anos, em especial nas suas relações com a Comunidade Econômica Européia (CEE) e com o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), atualmente os parceiros mais importantes dos países do MERCOSUL. A opinião é do embaixador Jório Dauster, atual representante do Brasil junto à CEE em Bruxelas, que ontem esteve em São Paulo (capital) participando do seminário "MERCOSUL: Desafios a Vencer", organizado pelo Conselho Brasileiro de Relações Internacionais-- entidade fundada em 1980 e da qual fazem parte especialistas ligados a universidades. Em sua palestra, Dauster lembrou que iniciou sua carreira diplomática defendendo os interesses de uma fazendola que exportava café e hoje se
76203 transformou em uma economia de estrutura extremamente sofisticada. De lá para cá, observou, tanto o Brasil quanto os demais países do MERCOSUL e vizinhos latino-americanos passaram décadas adotando o regime de economia fechada, tentando produzir localmente os produtos exportados por norte- americanos, europeus e asiáticos. Agora, esses países atravesam "uma rápida liberalização comercial", com ampla abertura às importações e a retirada do Estado de diversos setores da economia. "Nos venderam a idéia de um liberalismo que não encontra do lado de lá um mercado favorável", diz o embaixador. De nada adianta, afirmou, reclamar do protecionismo europeu e acusar as autoridades comunitárias de prejudicar o desenvolvimento econômico. "Com a CEE não adianta chorar, nem pedir esmola. Os europeus não têm tempo de dar esmolas", diz o embaixador, lembrando ainda que "a CEE foi criada para ser protecionista, é protecionista e sempre será". O maior desafio no processo de integração do Cone Sul é a instabilidade econômica. "Sem um mínimo de estabilidade, o MERCOSUL não vai funcionar e a situação do Brasil é preocupante", disse o assessor do Ministério da Fazenda, Gesner Oliveira, que também participou do seminário. Para ele, as políticas de integração desenvolvidas sinalizaram, porém, compromisso com a estabilidade e tornam Irreversíveis" as reformas estruturais. "A razão do processo do MERCOSUL, apesar das vozes de ceticismo, está na transição de um modelo com alta intervenção do Estado e de substituição de importações para um modelo que defende a menor intervenção". O professor Hélio Jaguaribe, do IEPS (Instituto de Estudos Políticos e Sociais), disse no encontro que o MERCOSUL pode representar a sobrevivência do Cone Sul na "selva internacional criada pelo neo- liberalismo de mão única deste final de século". O MERCOSUL é a defesa do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai contra o que Jaguaribe chamou de mercantilismo pragmatista do Primeiro Mundo, que exige uma política de comércio liberal dos países em desenvolvimento, mas não admite reciprocidade, já que "o pragmatismo mercantilista impõe restrições com cotas e tarifas". Para ele, o Brasil corre o risco de cair no neo-colonialismo tecnológico. Mas o MERCOSUL, com seu mercado, pode criar "massa crítica" para cooperação entre Brasil e Argentina. "Se não houver isso, o MERCOSUL será uma área de comércio importante mas não alcançará o objetivo de dar à região uma voz internacional", disse (GM) (FSP).