Uma nova fase na Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida foi anunciada ontem pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, secretário- executivo do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas). Segundo ele, a geração de empregos e as mudanças na estrutura social do país não podem mais ser tratadas com descaso pelo poder político e econômico. "Um país que exporta alimentos para o mundo não pode mais ter gente passando fome", disse. "É absolutamente imoral, indecente, que uma pessoa passe fome ao seu lado e que 32 milhões de pessoas passem fome num país que é a terceira economia agrícola do mundo". Betinho participou ontem da romaria contra a fome, parte das comemorações pelo dia de N.S. Aparecida, na basílica do mesmo nome, em Aparecida (SP). Cerca de 150 mil fiéis, segundo a Arquidiocese de Aparecida, estiveram na cidade para a festa da padroeira do Brasil. O sociólogo foi aplaudido ao entrar na basílica e falou durante a missa rezada pelo núncio apostólico no Brasil, dom Alfio Rapisarda. Betinho pediu maior participação dos governos federal, estadual e municipal no combate à miséria. O sociólogo disse que a campanha já pode entrar numa segunda etapa. "Depois de comida, o emprego; depois do emprego, mudança nas estruturas do país. Antes se tentava mudar o país através da razão, das teorias, das ideologias. Nós estamos querendo mudar o país através da ética, da solidariedade, da prática concreta do encontro com o outro", disse. "O Brasil acordou e vai mudar através da ação da cidadania e pela marca da solidariedade", afirmou. Segundo Betinho, as mudanças na estrutura do país devem vir da cidadania. A minha tese, minha crença é de que nós, cidadãos comuns, se nos
76174 organizarmos, se nos mobilizarmos, nós mudamos o país. O país somos
76174 nós. Não podemos ficar com esta coisa salvacionista de que a salvação
76174 vem de cima, de que a salvação é o Estado. Não, o Estado é só o
76174 instrumento, a salvação é a sociedade. É a hora de fazer com que essa
76174 campanha não seja apenas um instante em que se pratica a solidariedade,
76174 mas que seja um momento de mudança do rumo do país. O sociólogo classificou como "crucial" o papel da igreja na campanha. Ele disse, ainda, que a revisão constitucional deve modificar alguns pontos estruturais. "A legislação agrária deve buscar a democratização da terra. Deve-se impedir que os oligopólios e monopólios façam da inflação a sua vida e, portanto, agravem a concentração de renda e a miséria". O presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), dom Luciano Mendes de Almeida, também participou da missa na basílica. Ele falou sobre a ordem mundial e os problemas enfrentados por países do Terceiro Mundo. A miséria e a campanha de combate à fome foram os temas de maior destaque. Herbert de Souza disse, também, que existe no Brasil uma Indústria da miséria" financiada com recursos públicos para objetivos políticos. Ele chamou a atenção para o fato de que a maior concentração do assistencialismo que marca essa Indústria" se encontra no Nordeste brasileiro, perpetuando uma estrutura viciada há séculos. "Esta região foi quem mais industrializou a miséria e a fome com a ação dos coronéis, inclusive dos modernos", denunciou. Betinho disse que a única saída para se acabar com essa situação, está no resgate da cidadania, estimulado por meio de uma grande campanha. Os temas sociais dominaram as homilias. As mensagens das dezenas de padres, bispos e arcebispos foram sempre voltadas para as dificuldades do povo brasileiro. Os sermões eram transmitidos para uma cadeia de 76 emissoras de rádio espalhadas por todo o país sob a liderança da Rádio Católica Aparecida, pertencente à Arquidiocese (FSP) (O ESP) (O Globo) (JB).