MENORES VOLTAM À CANDELÁRIA

Quase três meses após a chacina de oito menores de rua, os sobreviventes do massacre voltaram a ocupar a Praça Pio X, na Candelária, no centro do Rio de Janeiro (capital). Para marcar o retorno, eles promoveram no fim da tarde de anteontem um tumulto que culminou com a depredação de bancos, janelas e vitrais da Igreja da Candelária. Como não foi registrada queixa na delegacia, o grupo, de cerca de 20 menores, ficou em liberdade e ontem, durante todo o dia, agiu normalmente, guardando carros, pedindo esmolas e cometendo pequenos furtos. Os menores tentaram justificar a confusão de anteontem alegando que precisavam chamar a atenção das autoridades, porque ainda estariam sendo ameaçados de morte, por policiais do 5o. BPM (Praça da Harmonia) e da 1a. DP (Praça Mauá). Os menores disseram que deixaram o abrigo oferecido pela Justiça porque estavam sendo maltratados lá-- versão que não confere com a de outro sobrevivente, que garante que eles saíram porque frequentemente promoviam arruaças. Mesmo os sobreviventes que contam com proteção policial ainda têm medo de morrer-- por terem presenciado o assassinato dos oito colegas. Entre as oito testemunhas que ainda não voltaram às ruas, apenas uma, a grávida S., de 16 anos, arrumou trabalho. As outras reclamam que foram abandonadas: nem representantes de Organizações Não-Governamentais (ONGs), nem políticos cumpriram as promessas de ajudá-las. Sem estudo ou trabalho, os menores passam o dia conversando ou vendo televisão. A maioria ainda tem pesadelos relacionados à tragédia. Cerca de 500 mil casos de violência contra menores são registrados anualmente no Estado de São Paulo. Desse total, 70% são praticados pelos pais ou responsáveis. A conclusão consta do relatório da Comissão Especial de Inquérito da Assembléia Legislativa, que nos últimos dois anos analisou a violência contra menores. O relatório apresentado pelo deputado Marcelo Gonçalves (PTB), baseado em estimativas do Centro de Registros e Atenção aos Maus-Tratos na Infância (Crami), foi aprovado por cinco votos a três. Os deputados que votaram contra alegam que a CPI não investigou a violência praticada pela Polícia Militar e os grupos de extermínio (O Globo).