QUEM GANHA E QUEM PERDE NA RODADA URUGUAI

O Brasil não será um grande ganhador e pode até sair perdendo com a aprovação da Rodada Uruguai de liberalização comercial no âmbito do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT). A Rodada aumentará a riqueza mundial, especialmente a dos países já ricos, mas alguns países sairão perdendo, entre eles os mais pobres da África. Essas, pelo menos, são algumas das conclusões do mais completo trabalho feito sobre o impacto da liberalização do comércio sobre a economia mundial-- "Trade Liberalisation: Global Economic Implications"--, recém- publicado por três economistas, Ian Goldin, Odin Knudsen e Dominique van der Mensbrugghe, sob a égide do Banco Mundial e da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Num cenário parecido com o de um provável desfecho da Rodada Uruguai, de redução de 30% nas barreiras, tanto ao comércio agrícola quanto industrial, a economia mundial sairia ganhando US$213 bilhões a cada ano, a partir de 2002. O grosso do ganho na renda real, 64% ou US$135 bilhões, ficaria nas mãos dos países ricos, que integram a OCDE. Os outros países ganhariam US$85 bilhões, mas alguns perderiam US$7 bilhões. Caso houvesse uma liberação total do comércio, os ganhos globais subiriam para US$450 bilhões, dos quais US$290 bilhões iriam para a OCDE. Os outros países ganhariam US$201 bilhões, mas alguns perderiam US$40 bilhões. Todos os cálculos são feitos em dólares de 1992. O Brasil ficaria na situação de um ganhador não muito expressivo. A Rodada Uruguai acrescentaria 0,3% na renda real do país a cada ano a partir de 2002. É mais do que os EUA (0,2%) e Canadá (0,1%), mas metade do resto da América Latina, um terço do Japão, um quinto da Europa e um décimo da China. Caso a liberação fosse total, o ganho do Brasil subiria marginalmente para 0,4%. A simulação foi feita supondo um mercado de trabalho inteiramente flexível. Em outros termos, o impacto negativo sobre o emprego, provocado pela competição externa, levaria a uma redução do salário real, o que estimularia uma recontratação, evitando um aumento do desemprego. Como o impacto das mudanças no comércio se dá a longo prazo, é razoável supor uma acomodação do mercado de trabalho, embora tanto no Brasil quanto em outros países em desenvolvimento ele tenda a ser mais rígido. Supondo, no entanto, que o mercado de trabalho seja rígido e o desemprego aumente, o que aconteceria? A projeção do estudo considerando essa hipótese indica que o resultado global, ironicamente, seria um ganho ainda maio, já que a renda dos que estariam empregados aumentaria. No caso do Brasil, no entanto, neste caso o impacto da Rodada Uruguai seria negativo: a renda real cairia 0,1% ao ano a partir de 2002. Apenas no caso de uma liberação total o país ganharia uma renda extra, de 3,7% (GM).