BIÓLOGA VÊ DESPERDÍCIO EM CONTROLE DE ALIMENTO

Para aliviar a fome de 32 milhões de brasileiros que vivem na miséria, a bióloga Valquíria Lopes Enk, presidente do VIII Encontro Nacional de Analistas de Alimentos, iniciado ontem, em Porto Alegre (RS), defendeu o abrandamento da legislação sobre qualidade de alimentos. Isso permitiria o aproveitamento de toneladas de alimentos que são jogados fora porque a legislação os considera inadequados ao consumo humano, quando frequentemente não são", disse. Valquíria apontou como exemplo o biscoito da merenda escolar, que vai para exames de laboratório quando o prazo de estocagem vence. "Se houver 30 fragmentos de inseto a cada 100 gramas, é considerado ainda válido para consumo. Mas se tiver 31 fragmentos já é condenado. Ora, até 75 fragmentos por 100 gramas não é muito diferente de 30. Só passa a ser preocupante quando se constatam 250 fragmentos por 100 gramas", frisou. "Aliás, todos os outros países são muito mais flexíveis, aceitando 75 fragmentos a cada 50 gramas, num percentual bem menor". Segundo a bióloga, esse rigor faz com que toneladas de alimentos que poderiam matar a fome da população pobre sejam jogadas fora. "De que adianta incinerar milhares de grãos se velhos e crianças disputam comida nos lixões com os ratos?", questionou. Ela destacou o quadro dramático de fome e miséria no Brasil, ressaltado pela campanha do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, secretário-executivo do IBASE, e pediu que os analistas de alimentos ajudem a mudar a situação, propondo a modificação das leis de controle de qualidade. Secretária do subgrupo da Associação Brasileira de Normas Técnicas que estuda matérias estranhas em alimentos, Valquíria disse que "a legislação brasileira na área de alimentos é uma das mais rígidas do mundo e inadequada a um país onde se passa fome". Ela explicou que não defende o fornecimento de alimentos estragados aos pobres. "Precisamos deixar de ser utópicos e cair na realidade brasileira", insistiu, defendendo maior flexibilidade na legislação de alimentos (JB).