Em relatório enviado ontem à Justiça Federal em Roraima, a Polícia Federal classifica como crime de genocídio a matança de 16 índios yanomamis em agosto, e pede a prisão preventiva de 23 garimpeiros brasileiros responsáveis pelo assassinato. De acordo com as investigações do delegado Raimundo Soares Cutrim, que presidiu o inquérito que apurou o massacre, os garimpeiros tiveram a intenção de exterminar todos os índios das malocas Haximu e Tapiris, localizadas na Venezuela. O relatório aponta como causa inicial da chacina a promessa não cumprida feita pelo garimpeiro "João Neto" de obter uma rede para um dos índios. Sentindo-se traídos, um grupo de índios atirou para o ar e com isso foram assassinados. Pela lei, os acusados de genocídio são punidos pela soma das penas previstas por homicídio simples (artigo 121) e lesão corporal (artigo 129), cabendo penas de 12 a 30 anos. Em 41 páginas, o documento relata o horror da chacina, com base nos depoimentos de índios sobreviventes. O delegado aponta 15 garimpeiros como responsáveis diretos pela tragédia; os outros sete deram cobertura aos garimpeiros. As mortes dos 16 yanomamis não aconteceram juntas. Quatro índios foram mortos em junho, todos do sexo masculino, e em agosto, 12 índios, entre homens, mulheres e crianças. Ao indiciar os 23 garimpeiros por crime de genocídio, o delegado afirma que eles só não exterminaram todos os moradores das duas aldeias, porque a maior parte dos índios tinha saído em dois grupos, um para uma festa na maloca do Simão, e outro para colher ingás, uma fruta da floresta. Dos 23 garimpeiros indiciados, apenas dois estão presos na Penitenciária Agrícola de Boa Vista (RR): Pedro Emiliano Garcia, o "Pranchete", e Eliézio Monteiro Neri. Entre os foragidos está João Ferreira de Morais, o "João Neto", acusado de ser o mentor da chacina (O ESP) (O Globo).