A tortura física e psicológica aos soldados nos cursos de formação da Polícia Militar de Brasília (DF) não é um "fato isolado", como disse no mês passado o secretário de Segurança do Distrito Federal, coronel João Brochado, surpreendido com a divulgação do vídio sobre um humilhante treinamento ocorrido em 1990. Cenas de maus-tratos ocorreram também no dia 27 de junho do ano passado, no Campo de Treinamento do Exército cedido à PM: cerca de 100 recrutas ficaram presos em um cubículo tomado por gás lacrimogêneo. Suados, muitos choravam em função de queimaduras causadas pelo gás. Estas cenas fazem parte do novo vídeo que a Federação Nacional das Entidades de Praças da Polícia Militar e Corpo de Bombeiros Militar do Brasil (Fenapol) divulga no próximo dia 30 no Congresso Nacional. O vídeo será exibido a deputados da comissão especial que estuda a desmilitarização das polícias militares e levado também à Câmara Legislativa do DF, onde foi aberta uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar os maus-tratos a recrutas da PM. Em Porto Alegre (RS), um vídeo ainda mais violento que o primeiro, desta vez envolvendo alunos da Academia da Brigada Militar-- futuros oficiais-- foi apresentado ontem pelo presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Jair Krischke: os alunos são, não só obrigados a beber sangue de galinhas e coelhos, como aparecem cenas em que um deles é obrigado a matar uma galinha viva a dentadas. Também aparecem cenas de "racismo explícito", de um negro obrigado a colocar, como touca, uma galinha depenada, e a fazer uma "oração ao grande Deus branco". Segundo Krischke, desta vez se identificou que um dos chefes da equipe de instrução de futuros oficiais é o "tenente Sérgio Lemos Simões", o mesmo que aparece no primeiro vídeo, divulgado há um mês, em que soldados recebem treinamento com torturas e humilhações. O novo vídeo, dos alunos da Academia, se refere ao período de quatro a seis de maio de 1993-- o dos soldados era de 1990 (JB).