AIDS AVANÇA ENTRE OS POBRES

A miséria, que mata de desnutrição, tuberculose e hanseníase, encontrou uma nova arma para atingir os 32 milhões brasileiros-- sendo quase dois milhões de fluminenses-- que vivem na indigência: o vírus da AIDS. Desde a notificação dos primeiros casos da doença, no início dos anos 80, até agora, o comportamento da epidemia mudou de rumo. Da expansão em guetos de classe média/alta, em particular de homossexuais e viciados em drogas, a AIDS passou a se disseminar nas camadas da população onde mais vale comprar dois litros de leite do que uma caixa de preservativos. Ignorados pelas estatísticas oficiais, os doentes miseráveis caminham para ser um grupo cada vez maior. Levantamento da Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro indica que, no início da década passada, quando a AIDS ainda engatinhava, 40% dos portadores do vírus no município do Rio tinham nível superior, contra menos de 5% com escolaridade até a 4a. série do primeiro grau. Hoje, dos 4.896 casos notificados até junho deste ano, apenas 17% passaram pela universidade. E 25%, quando muito, concluíram o curso primário. Números do Instituto Estadual de Hematologia Arthur Siqueira de Cavalcanti confirmam o avanço da doença nas camadas sociais mais carentes. O Instituto recebe 85 mil doações por ano e, em cada mil doadores, três ou quatro estão contaminados. Segundo o perfil do doador feito em 1987 pelo IBGE, o frequentador do Instituto é, majoritariamente, homem, negro e pobre-- ou seja, vive com até um salário-mínimo. Na chamada população de rua-- em torno de quatro mil pessoas-- a situação é ainda mais dramática. No ambulatório do Banco da Providência, ligado à Arquidiocese do Rio e que cuida especificamente dessa clientela, um em cada dois exames tem resultado positivo. Já foram feitos cerca de 800 testes (O Globo).