O relatório final das Polícias Civil e Militar sobre a matança de 21 pessoas na favela de Vigário Geral, na madrugada do dia 30 de agosto, revela que existe no Rio de Janeiro uma rede de crimes praticados por policiais e alcaguetes. Segundo o vice-governador e secretário de Polícia Civil e Justiça, Nilo Batista, pelo menos outros 10 crimes executados por essa "articulação" estão sendo investigados, entre eles o sequestro e desaparecimento de 11 adolescentes na favela de Acari, ocorrido em 1990. Vinte e oito policiais militares, três policiais civis e dois informantes da polícia, funcionários do Instituto Félix Pacheco, foram apontados como responsáveis pelo massacre de Vigário Geral. No início da noite de ontem, todos os acusados-- que fazem parte de um grupo de extermínio conhecido como "Cavalos Corredores-- tiveram decretadas as suas prisões preventivas. Dos acusados, apenas 23 já estão presos. O relatório diz que a chacina de 30 de agosto foi uma vingança pelo assassinato, na véspera, de quatro PMs-- entre eles o líder do grupo de matadores, sargento Ailton Nascimento-- que fazia uma operação irregular na favela. O documento revela também que a matança começou a ser planejada no enterro de um dos quatro PMs. A operação de extermínio tinha como alvo os traficantes de Vigário Geral. A Polícia tem uma testemunha que é mantida escondida e que gravou sete fitas de depoimento contando tudo sobre as atividades do grupo. A testemunha-chave que pode apontar os policiais criminosos dessa rede clandestina é um ex-informante da Polícia que participou de várias reuniões para o planejamento dos crimes. Também foram localizadas pessoas que viram quando os policiais colocaram os capuzes para invadir a favela. O delegado Elias Barbosa, que presidiu as investigações, contou que, quando os policiais chegaram à favela e não encontraram os traficantes, ficaram frustrados e investiram contra as pessoas que estavam num bar. Pediram documentos e, como todos comprovaram residência e profissão, eles se preparavam para ir embora, quando um dos soldados, conhecido como Bebezão jogou uma bomba de efeito moral. Houve protestos e as 12 pessoas que estavam no bar foram fuzilados por causa disso. Em seguida, o grupo entrou na casa em frente, onde viviam 13 pessoas-- entre elas cinco crianças-- de uma família de evangélicos. Essa casa já pertenceu ao traficante Francisco Antônio da Silva, o "Chiquinho Rambo". A casa foi revistada e, como nenhuma arma ou droga foi encontrada, os policiais se preparavam para sair, quando o grupo percebeu que um dos PMs estava sem capuz. Diante disso, todos resolveram voltar e matar os oito adultos da família, a fim de evitar que posteriormente fosse feito o reconhecimento. A relação dos 33 denunciados pelo Ministério Público é a seguinte: William Alves, cabo PM; Hélio Vilário Guedes, soldado PM; José Fernandes Neto, soldado; Arlindo Maginário Filho, soldado; Paulo Roberto Borges da Silva, soldado; Alexandre Bicego Farinha, soldado; Carlos Teixeira, soldado; Júlio César Braga, soldado; Leandro Marques da Costa, soldado; Valdeir Resende dos Santos, cabo; Gil Azambuja dos Santos, soldado; Marcelo dos Santos Lemos, soldado; Roberto Cézar do Amaral Júnior, soldado; Willian Moreno da Conceição, soldado; Sirlei Alves Teixeira, soldado; Edmilson Campos Dias, cabo; Sérgio Cerqueira Borges, soldado; Amauri do Amaral Bernardes, cabo; João Ricardo do Nascimento Batista, cabo; Paulo Roberto Alvarenga, soldado; Luciano Francisco Santos, soldado; Adilson Saraiva da Hora, soldado; Hélio Gomes Lopes, cabo; Demerval Luiz da Rocha, soldado; Adriano Maciel de Souza, alcaguete (ex-PM); Gilson Nicolau de Araújo, soldado; Luiz Carlos Pereira Marques, soldado; Adilson de Jesus Rodrigues, soldado; Marcus Vinicius de Barros Oliveira, civil; Jonas Lourenço da Silva, civil; Leandro da Silva Costa, civil; Jorge Evandro Santos de Souza, alcaguete; e Jamil José Sfair Neto, soldado. O soldado José Eduardo Creazzola, que era apontado como o principal envolvido na chacina, foi inocentado. Na hora da matança, ele estava preso numa unidade militar (JB) (O Globo) (O ESP).