O presidente da Rússia, Boris Yeltsin, deu um golpe de Estado. Ele decretou ontem a extinção do Congresso dos Deputados do Povo (CDP) e convocou eleições parlamentares para os dias 11 e 12 de dezembro, quando pretende transformar o Congresso num Parlamento bicameral (com Câmara e Senado, funcionando como nos EUA e no Brasil). A medida, anunciada pela TV às 20h locais, culmina dois anos de disputas entre o Executivo e o Legislativo russos, que estão paralisando o governo em meio à maior crise econômica da segunda potência nuclear do planeta. Duas horas depois do decreto presidencial, o Parlamento decidiu, em reunião de emergência, afastar Yeltsin por violação da Constituição. Os deputados nomearam o vice-presidente, Alexander Rutskoi, chefe de Estado. A Corte Constitucional russa (o órgão máximo do Judiciário) decidiu que o decreto de Yeltsin é anticonstitucional e que ele pode sofrer impeachment. O líder do CDP, Ruslan Khasbulatov, convocou reunião de emergência do Congresso para hoje, e conclamou o povo russo a resistir através de uma greve geral. Desde a noite de ontem, cerca de mil opositores de Yeltsin se reuniram em frente à Casa Branca, sede do Parlamento, erguendo barricadas para defendê-la de um possível ataque. Neste mesmo local, Yeltsin liderou a reação ao golpe de Estado contra o presidente soviético Mikhail Gorbatchov, em agosto de 1991. Foram distribuídos fuzis Kalachnikov aos guardas do Parlamento. O ministro da Defesa, Pavel Gratchov, disse que as Forças Armadas da Rússia vão se manter neutras no conflito entre Yeltsin e o CDP. O Pentágono interpretou a decisão como sinal de apoio dos militares a Yeltsin. Segundo o comando militar norte-americano, não havia movimentação de tropas ontem em Moscou. Yeltsin disse que não será permitida a anarquia num país possuidor de armas nucleares. Afirmou que suas ações são necessárias, tanto para preservar a democracia quanto o mercado russo ainda fraco. Em Washington, o presidente dos EUA, Bill Clinton, telefonou para Yeltsin para manifestar seu apoio às medidas de exceção. Clinton pediu ao Congresso a aprovação rápida da parcela norte-americana de US$1,6 bilhão de um pacote de ajuda internacional à Rússia. O vice-presidente, Al Gore, disse que "Yeltsin é a melhor esperança para a democracia na Rússia". Os governos da Grã-Bretanha, da Espanha, da Ucrânia e da França também deram apoio ao golpe. Em Brasília (DF), o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse que o governo brasileiro recebeu com "certa surpresa" o golpe na Rússia. Amorim afirmou que o governo brasileiro vinha "acompanhando as diferenças entre o presidente e o parlamento" da Rússia. Amorim conversou com o embaixador do Brasil na Rússia, Sebastião do Rêgo Barros. O embaixador informou apenas que a expectativa naquele país é em relação às Forças Armadas-- se elas ficam com Yeltsin ou defendem a reabertura do Parlamento. O chanceler afirmou que acompanha o golpe "com preocupação". "Como todo mundo, desejo que um país importante caminhe para a consolidação de suas instituições democráticas", disse (FSP) (O Globo).