Brasil e Uruguai estão envolvidos em um estranho duelo diplomático. Nos próximos meses, uma comissão diplomática dos dois países vai gastar tempo e dinheiro para discutir a posse de um vilarejo com menos de mil habitantes e um banco de areia, encravado na embocadura dos rios Uruguai e Quaraí, na fronteira com o Estado do Rio Grande do Sul. O banco de areia, que tem menos de quatro hectares de área e desaparece na época de chuvas, é reivindicado pelos dois governos. Conhecido como Ilha Brasileira", o banco de areia pode mudar de nome se o esforço diplomático do governo de Montevidéu tiver sucesso. O assunto foi incluído na pauta da comissão bilateral criada na semana passada por Brasil e Uruguai para discutir o desenvolvimento da região do Quaraí. O problema da comissão será geográfico. É preciso descobrir se a ilhota fica no rio Uruguai ou no rio Quaraí. No primeiro caso, ela seria território uruguaio. No segundo, parte do Brasil. Um trabalho difícil, já que os dois rios mudam de foram justamente no local em que se encontram. O vilarejo, chamado de Vila Thomaz Albornoz, faz parte de uma área de 220 km2 em forma de triângulo, conhecida no Brasil como "Rincão de Artigas". A região é considerada brasileira desde o tratado de 1851, que definiu as fronteiras entre Brasil e Uruguai. Durante mais de 100 anos, não foi contestada, até que, em 1966, o geógrafo e coronel do Exército uruguaio Horácio Vicco publicou um artigo defendendo a tese de que houve um "erro geográfico monumental" na definição das fronteiras. Segundo a tese, o tratado de 1851 considerou o riacho errado como sendo a linha de fronteira. A comissão que elaborou o tratado original concluiu que o "arroio (pequena corrente de água) Invernada" era a foz do rio Quaraí e, portanto, marco da fronteira. Para o Uruguai, a verdadeira foz do Quaraí fica quilômetros acima, paralelo à cidade brasileira de Santana do Livramento (FSP).