AUMENTOU O NÚMERO DE POBRES NA AMÉRICA LATINA

A população pobre da América Latina é hoje muito maior, em percentuais, do que em 1980. A informação aparece no relatório anual do Banco Mundial (BIRD), divulgado ontem em Washington (EUA). Na situação de pobreza, diz o documento, encontravam-se 32% da população latino-americana, quando a década de 90 começou. No começo da década anterior, a proporção era de 22%. O Brasil, com 33% da população e 40% da produção da América Latina, merece destaque nesses dados, pois é nele que vivem 44% dos mais pobres do continente, uma situação definida como a de um ingresso individual inferior a US$60 mensais (dólares de 1985). Segundo o BIRD, México e Peru têm, respectivamente, 11% e 9% dos pobres da região. O relatório constata que, na América Latina, 20% da população com ingressos mais baixos participa em apenas 4% da renda total e que, ao contrário do que acontecia nas décadas anteriores, a pobreza agora está mais concentrada nas cidades do que no campo. Nas áreas urbanas, estariam vivendo 64 milhões de pobres-- os dados são de 1989-- e os restantes 60 milhões estariam em áreas rurais. No Brasil, os 20% mais pobres têm 2,1% da renda nacional, enquanto que em 1980 os 20% mais pobres da população tinham 2,6% da riqueza do país. Os dados, em geral, são péssimos para o Brasil. O país foi um dos três em que o nível de pobreza na década de 80 cresceu muito mais do que era previsto no final dos anos 70. Os outros são o Panamá e o Peru. O crescimento da pobreza no Brasil nos anos 80 foi um dos principais responsáveis pelo aumento do número de pobres no subcontinente inteiro no período (passou de 26,5% para 31,5% da população, num total de 130 milhões de indivíduos). Se o Brasil tivesse obtido obtido a mesma redução dos níveis de pobreza que o México obteve na década passada, a incidência da pobreza na região teria se reduzido em 25%, diz o estudo do Banco Mundial, entitulado "Pobreza e Distribuição de Renda na América Latina". O Brasil aparece ao lado da Bolívia e da Guatemala como os três países com os mais altos níveis de mortalidade infantil e analfabetismo no subcontinente. Esses indicadores sociais são dois dos que mais se associam com os índices de pobreza. No relatório do BIRD, o Brasil é mostrado como exceção na América Latina, com inflação de 1.100% e queda de 1% no Produto Nacional Bruto em 1992. Nos outros países da região, o PNB cresceu 4,6%, a renda per capita subiu 2,7% e a inflação ficou entre 20% e 50%. "O declínio da inflação foi particularmente notável na Argentina, Nicarágua e Peru", afirma o documento. A recomendação que os técnicos do BIRD fazem para a mudança desse quadro é a adoção de reformas estruturais, com vistas à estabilidade monetária e ao crescimento econômico sustentável, pois só assim se reduziria a pobreza a longo prazo. Os ricos, cuja participação na renda total continua crescendo, segundo o relatório, "têm maior capacidade para proteger-se do impacto de uma recessão". Em defesa de sua tese, o BIRD afirma que as nações que, durante a década de 80, "falharam na implementação de necessárias reformas econômicas", experimentaram o mais brusco crescimento da pobreza. E aponta Brasil e Peru como exemplos. O Brasil não tem contribuído somente para que o aumento de sua pobreza projete para o alto os índices de marginalidade de toda a América Latina. Há também contribuições brasileiras que se destinam a melhorar os indicadores da região, como a da atração de capitais externos, cujo fluxo cresceu de US$40 bilhões, em 1991, para US$57 bilhões em 1992 (o ano fiscal do BIRD começou em julho de 92 e terminou em junho de 93). "Embora o Brasil não seja um exemplo de país ajuste bem-sucedido, atraiu, apesar disso, grandes correntes de capital, equivalentes a US$10 bilhões". Ou seja, mais de 20% dos investimentos estrangeiros para todo o continente. No ano fiscal de 1993, o Brasil pagou ao BIRD US$1,2 bilhão, referente a amortizações do principal de sua dívida, e US$607 milhões em juros e comissões. Recebeu US$550 milhões. O Brasil tem crédito de US$5 bilhões de empréstimos já aprovados pelo Banco Mundial, mas ainda não desembolsados. Os dados sobre o saldo negativo do Brasil também estão no relatório. Nenhum outro país da América Latina tem transferências negativas tão altas quanto as brasileiras. Entre 1989 e 1993, elas acumulam US$5,3 bilhões. Na América Latina inteira, no mesmo período, elas somam US$7,9 bilhões (GM) (FSP).