Uma estrada (a BR-174), uma hidrelétrica (a de Balbina) e uma mina de cassiterita (de Pitinga, a maior do país), quase riscaram do mapa amazônico a nação indígena Waimiri-Atroari, uma das mais ameaçadas do Brasil. A extinção parecia próxima em meados dos anos 80, quando o povo, que vive numa área de 2,4 milhões de hectares no Amazonas (junto à divisa com Roraima), estava reduzido a apenas 400 indivíduos. No entanto, os índios começaram a reagir e, por iniciativa própria, estão realizando projetos ambientais para recuperar a abundância da caça e da pesca de outros tempos. Uma das fontes de proteína dos Waimiri-Atroari, os ovos de quelônios (tartarugas) estão voltando aos rios da região. Para iso, os índios tiveram que ajudar a natureza e usar areia para criar praias fluviais, que antigamente serviam de tabuleiros para a desova das tartarugas. Grande parte dos tabuleiros desapareceu sob o lago de Balbina, que inundou 30 mil hectares de suas terras. Os dejetos da extração de cassiterita pela mineradora Taboca também comprometeram tabuleiros de quelônios, além de contaminar rios como o Abonari e Uatumã, reduzindo drasticamente a população de peixes. Os danos não foram reparados, mas, por conta dos impactos de Balbina, os índios lutaram e conseguiram uma indenização mensal da ELETRONORTE. Com estes recursos, criaram em 1985 o Programa Waimiri-Atroari, para a recomposição ambiental de seu território. Em 89, os índios fizeram uma praia artificial no lago do Nawa, que consumiu 29 caçambas de areia, transportadas pelo Exército. Em 92, os Waimiri-Aroari instalaram um berçário semi-natural no lago Jundiá, onde colocaram 3.633 filhotes. O repovoamento dos rios foi iniciado na semana passada, com o lançamento dos primeiros 1.500 filhotes de tartaruga nos rios Alalaú e Abonari. O coordenador do Programa Waimiri-Atroari, o técnico Robert Muller, explica que os índios pretendem em breve comercializar as tartarugas, através do IBASE. "Os Waimiri-Atroari incorporaram nos últimos anos importantes noções conservacionistas", diz o coordenador, lembrando que alguns deles ficaram impressionados quando visitaram a capital amazonense e viram os seu igarapés poluídos e mortos. Hoje, os Waimiri-Atroari já são 570 índios, e voltaram a ter crescimento populacional positivo, de 12% ao ano (JB).