De 1983 a 1992, o Brasil já pagou de juros aos credores internacionais US$130,1 bilhões, quase o saldo total da dívida externa brasileira, contabilizada hoje pelo Banco Central em US$135 bilhões. Como se não bastasse o elevado desembolso aos credores, a dívida externa neste período praticamente dobrou-- passou de US$83 bilhões para US$135 bilhões, sem que houvessem entrado no país empréstimos na mesma proporção. O país enviou ao exterior US$67,6 bilhões a mais do que recebeu. O sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, secretário-executivo do IBASE, teria três vezes menos trabalho pela frente, na campanha de combate à fome, se o governo brasileiro não tivesse mandado para o exterior US$130,1 bilhões, como pagamento de juros e serviços da dívida externa nos últimos nove anos. Se esse dinheiro tivesse sido gasto com o pagamento de salários-mínimos mensais aos brasileiros que nem isto recebem, em vez de 32 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza absoluta, o Brasil teria 12 milhões de famintos. O dinheiro que escoou para fora do país nesse período seria suficiente para pagar salários-mínimos a 20 milhões de pessoas durante esse nove anos. Em áreas sociais importantes como Saúde, Educação, Saneamento e Cultura, o governo investiu, na década, menos da metade (US$57,5 bilhões) do que pagou ao exterior. Esses números são do Ministério da Fazenda e do Banco Central, e as contas foram feitas pelo deputado federal Carlos Luppi (PDT-RJ). Luppi descobriu, por exemplo, que o presidente "mais entreguista" da década-- o que fez os maiores pagamentos externos-- foi José Sarney, especialmente no ano de 1988, quando a receita arrecadada líquida foi de US$21,1 bilhões e foram pagos US$20,3 bilhões de juros e amortizações da dívida externa. No mesmo ano de 1988, o governo investiu apenas US$2,2 bilhões em Educação e Cultura, US$558 milhões em Saúde e Saneamento e US$503 milhões em programas especiais de Saúde, como vacinação infantil. Em 1990, ano do Plano Collor, foi a primeira vez na História do Brasil em
75797 que se pagaram mais amortizações do que juros (US$3,4 bilhões de juros e
75797 US$4,6 bilhões de amortizações), constata o deputado. Luppi aponta ainda um curioso fenômeno no governo Collor: "No ano do confisco, tivemos também a maior receita arrecadada líquida da história (US$126,5 bilhões). Também foi quando se gastou mais com Saúde e Saneamento (US$14,4 bilhões). Leia-se: obras, esquema PC. Naquele ano, se gastou sete vezes mais com obras do que com Educação", afirmou (JB).