CAMINHO DO COMBATE À FOME É TRANSPARENTE

Um exército de voluntários dispostos a fazer o bem ao próximo e ao país saiu do imobilismo e está nas ruas militando contra a fome e a miséria. A convocação feita em março pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, secretário-executivo do IBASE, deu certo. Crentes e agnósticos, ricos e pobres, jovens e velhos, cidadãos anônimos e famosos se engajaram na campanha. Até pelo caráter autônomo do movimento, já é difícil recensear quantos comitês já foram formados, enumerar seus feitos e nominar seus militantes. Mas uma coisa todos têm em comum: a transparência nas ações. Betinho, coordenador nacional do movimento que ficou conhecido simplesmete como "Campanha contra a Fome", mas originalmente atende pelo nome de "Ação da Cidadania contra a Miséria e Pela Vida", estima que já existam três mil comitês no Brasil. No Rio de Janeiro, imagina serem cerca de 150, muitos dos quais em favelas. A cada dia, surgem mais pessoas dispostas a se alistar nesse exército, que sabe que não vai resolver o problema de 32 milhões de miseráveis, mas já descobriu que ficar parado ajudará menos ainda. Gente como a artista plástica Edwiges Bicalho, moradora de um duplex no Leblon, zona sul do Rio, que nunca participara de nada parecido, hoje se vê com o maior prazer às voltas com sacos de comida. Gente como as donas de casa do paupérrimo Conjunto Habitacional Campinho, em Campo Grande, zona oeste, que em pouco mais de dois meses mapearam as carências locais e já se preparam para montar uma oficina de costura e calçados para empregar parte dos 1.338 desempregados da comunidade. Gente como pais e alunos do Colégio Teresiano, na Gávea, zona sul, que mensalmente doam 1,5 tonelada de alimentos a cinco creces da Rocinha. Essa semana, decidiram adotar mais uma e formar um banco de empregos no bairro. Muitos dos que participam da campanha e fazem parte da seleta casta social que pode comer carne todos os dias e tem acesso a boa educação, saúde, lazer e moradia, não sabem identificar exatamente a razão de terem se engajado no movimento. Talvez por medo de que a miséria, que mora ao lado, ultrapasse as grades de ferro que protegem seus condomínios. Talvez por culpa. O fato é que uma vez exercitada a solidariedade, eles são contagiados a fazer cada vez mais. Tornam-se cidadãos. Começam dando uma sacola de alimentos e logo planejam montar cursos profissionalizantes. Os favelados, que sempre deram exemplo de solidariedade para driblar a omissão do Estado, agora formam parcerias com empresas e com o "pessoal do asfalto". O caminho seguido pelas doações à Campanha contra a Fome, até chegarem às mãos de quem precisa, tem apenas uma regra: deve ser rápido. No mais, é responsabilidade de cada comitê definir como será feita a arrecadação, a separação dos alimentos em cestas básicas e a distribuição. Quem desconfia dos métodos-- o que é natural numa sociedade escaldada pela corrupção-- pode fiscalizar, participando do comitê. Em geral, sempre participam da arrecadação e da distribuição integrantes do comitê e das comunidades beneficiadas. A transparência motiva as pessoas. Os 150 comitês de combate à fome do Distrito Federal, organizados pela sociedade civil a partir de abril, já doaram cerca de 10 toneladas de alimentos à população carente do DF. Os comitês beneficiaram até agora 11,5 mil pessoas com mantimentos. São 350 entidades e cidadãos cadastrados na Secretaria Regional do Movimento Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e Pela Vida. "A perspectiva é dobrar o número de comitês em breve", afirma a coordenadora da campanha no DF, Dóris Simas, ao fazer o primeiro balanço do movimento, lançado pelo sociólogo Herbert de Souza. Solidariedade, cidadania, mobilização e participação são as palavras- chave da campanha. Dóris informa que só as agências do Banco do Brasil organizaram 50 comitês. Das 11 cidades-satélites do DF, oito têm comitês que estão em contato permanente com a Secretaria Regional. Em parceria com o governo de Brasília, os comitês da sociedade civil organizarão o Conselho de Segurança Alimentar do Distrito Federal. A proposta foi feita ao governador Joaquim Roriz pelo bispo dom Mauro Morelli, secretário-executivo do Consea. Com a criação do conselho, governo e sociedade planejarão as ações coordenadas de combate à fome e incentivo ao desenvolvimento social para o DF. Além dos comitês organizados pela sociedade civil, o governo local criou, em julho, um programa próprio de combate à fome. Segundo dados da Secretaria de Trabalho, foram distribuídos 900 quilos de mantimentos em dois meses. Cerca de 40 mil famílias foram beneficiadas com a entrega de cestas básicas que contêm óleo, arroz, feijão e outros alimentos. Os funcionários das empresas estatais de São Paulo estão se mobilizando na campanha contra a fome. Em pelo menos quatro delas já funcionam comitês para arrecadação de alimentos e discussão dos problemas relacionados à miséria. A Emplasa (Empresa Metropolitana de Planejamento da Grande São Paulo) formou seu comitê há dois meses e resolveu "adotar" 37 famílias de trabalhadores da própria empresa. Esses funcionários recebem menos de dois salários-mínimos (CR$19,2 mil) e têm um padrão de vida abaixo da linha de pobreza. Os membros do comitê arrecadam vales- refeição ou alimentos não-perecíveis. Os empregados do Metrô adotaram a mesma forma de ação. Eles arrecadam os vales-refeição e distribuem os alimentos aos trabalhadores mais carentes que prestam serviços na companhia. Os empregados do BANESPA também se mobilizaram na campanha. Eles utilizaram a Afubesp (Associação dos Funcionários do BANESPA e Conglomerado) para formar um comitê, que deve lançar uma grande campanha de arrecadação de vales na primeira semana de outubro (JB) (FSP).