PESQUISADORES VÃO DISCUTIR A FOME

A campanha contra a fome, encabeçada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, secretário-executivo do IBASE, sensibilizou também as entidades brasileiras de pesquisa agropecuária, que estão se unindo para propor meios de aumentar a produção de alimentos no país. No próximo dia 21, será dada a partida para o esforço conjunto nesse sentido, com a realização do 1o. Encontro Nacional de Instituições de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural para o Combate à Fome e à Miséria. Durante três dias, os maiores especialistas em produção agrícola no país estarão reunidos no Rio de Janeiro (capital) apresentando os resultados das pesquisas existentes sobre o aumento da produtividade nas atividades rurais. Mais do que uma reunião técnica, o evento deverá constituir-se em um ato político, como afirma o presidente da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro (Pesagro-Rio)-- que está organizando o encontro-- , Airton Castagna: "Nào faz sentido um país com um potencial agrícola imenso não ter uma política nacional de produção. É isso que iremos buscar nesses três dias; despertar os governos estaduais e federal e a sociedade em geral para a necessidade de investir mais no desenvolvimento da agropecuária, que terá como consequência o verdadeiro resgate da cidadania, a partir da ampliação da oferta de empregos e alimentos". Ao mesmo tempo que elogia a iniciativa de Betinho de mobilizar o país para o problema da miséria, o presidente da Pesagro alerta para o perigo de a campanha de doações de alimentos permanecer apenas no caráter assistencialista. "Esse primeiro passo é fundamental, sem dúvida, pois a fome não pode esperar. Mas temos de dar continuidade a esse trabalho e nós, pesquisadores, podemos dar uma boa contribuição nesse sentido", diz. Com a tecnologia que o Brasil já dispõe, acrescenta Castagna, seria possível dobrar a atual produção de grãos-- hoje em torno de 70 milhões de toneladas ao ano-- em três anos, e até triplicá-la, em um período de oito a 10 anos. Mas, para isso, admite, seria necessário reestruturar todo o sistema agrícola-- desde a concessão de créditos aos produtores até a atual política fundiária, o que significaria, neste caso, implantar efetivamente a reforma agrária no país. Novos métodos de colheita e melhoria nas condições de armazenagem e transporte, ou seja, o combate ao desperdício que hoje chega a 30% do que se produz-- também são essenciais para aumentar o volume de alimentos na mesa dos brasileiros, lembra o presidente da Pesagro. Entre as propostas defendidas pela Pesagro, está a implantação do sistema de equivalência-produto para a correção dos financiamentos concedidos a título de crédito rural; e a implantação de um programa de irrigação para o Nordeste (JC).