ONGS BAIANAS DESVIAM DINHEIRO PÚBLICO

A criança carente está se transformando num bom negócio para inúmeros adultos que trabalham em projetos sociais financiados pelo governo. É o que demonstra auditoria encomendada pelo próprio Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência (CBIA), do Ministério do Bem-Estar Social, sobre as atividades de órgãos oficiais e não governamentais na Bahia. A investigação abrangeu o período de maio a julho de 1992 e constatou que verbas federais destinadas à assistência de crianças e adolescentes foram desviadas para a compra de bebidas alcóolicas e reforma de imóveis de dirigentes dessas entidades, quando não engordaram contas bancárias particulares, através de notas frias e empresas fantasmas. Algumas entidades-- como a não-governamental Organização de Auxílio Fraterno (OAF)-- sequer recorreram ao expediente de inventar despesas. Entre fevereiro e setembro de 1991, a OAF gastou Cr$759,9 mil (valores não atualizados) em uísque, vodca, vinho, cervejas, cigarros e até rações para cães e pássaros com recursos de convênios intermediados pela Secretaria de Ação Social da prefeitura de Salvador. Tudo foi registrado em notas fiscais discriminadas. Operação mais sofisticada envolve o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua em Salvador, conhecido como Projeto Axé, e a ex-chefe do escritório regional do CBIA Maria da Conceição Muniz de Castro Lima. Um cheque de Cr$2,5 milhões teve como destino final a conta bancária de Maria Lima, depois de passar por outras mãos. Lançado em agosto de 1991 com a justificativa de pagamento por suposta prestação de serviços de Juvêncio Teixeira Rezende, credenciado pelo escritório regional do CBIA, o cheque foi nominativo a Ricardo Kersten, embora tenha sido entregue pessoalmente a Rezende. Kersten nunca prestou serviços para o Projeto Axé, mas confirmou aos auditores que trabalhara na reforma da casa de Maria Lima. O preço combinado para o serviço fora Cr$2,5 milhões, o mesmo valor que saiu da entidade e entrou na conta de Maria Lima. O Projeto Axé diz ser vítima da ex-chefe do escritório da CBIA em Salvador. Segundo o empresário Cesare de Florio La Rocca, responsável pelo projeto, o dinheiro pago a Maria da Conceição foi para a gravação de um vídeo sobre os meninos de rua de Salvador, encomendado pela CBIA ao Projeto Axé. Ficamos sabendo posteriormente que a mesma pessoa responsável pelo vídeo era o arquiteto que reformou o apartamento de Maria da Conceição", disse La Rocca (O Globo).