A dívida externa brasileira vem crescendo substancialmente. Desde 1990 até junho deste ano foram captados no exterior US$34,797 bilhões (excluem-se aqui os investimentos diretos e os financiamentos de organismos internacionais), um valor muito próximo do estoque de US$35 bilhões que o governo quer reestruturar pelo prazo de até 30 anos com os bancos credores privados internacionais. O endividamento volta a crescer uma década depois da crise cambial causada justamente pela enorme dívida externa acumulada nos anos 60 e 70, e ninguém nega que isso esteja ocorrendo. Os números podem ser facilmente comprovados nas estatísticas do Banco Central. Falta, no entanto, consenso sobre as características desse novo endividamento. Para o economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do BC, não há grandes diferenças: "A semelhança entre o que aconteceu na década de 70 e o que está acontecendo hoje é enorme". O dinheiro da captação com bônus, commercial papers, notes, os empréstimos inter-companies, as operações 63 (para repasse interno), as operações de securitização e o ingresso do capital estrangeiro nas bolsas de valores não trazem, segundo ele, nenhum benefício para o país. "São recursos inúteis que não têm outra finalidade a não ser gerar lucro para quem faz arbitragem entre os juros internacionais e os juros internos e não entendo essa mágica que só contribui para aumentar o déficit público", comentou Pastore. O ex-diretor da área internacional do BC, Arminio Fraga Neto, não concorda que o país esteja repetindo agora o mesmo tipo de endividamento externo da década de 70. Ele recomenda que se analisem os dados da dívida externa líquida e não da dívida externa bruta. "Ao contrário dos anos 70, quando tínhamos um déficit na conta corrente do balanço de pagamentos, temos hoje superávit nesta conta e um endividamento externo que gera aumento das reservas internacionais, de modo que há redução na dívida externa líquida", argumenta ele. A constatação é aritmética e resume o cálculo do estoque da dívida externa bruta, deduzido do valor das reservas internacionais do país-- hoje em torno de US$23 bilhões. O acordo da dívida externa com os bancos credores privados, envolvendo cerca de US$52 bilhões a US$53 bilhões, será transferido para o ano que vem em face das dificuldades internas de se chegar a um entendimento com o Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre o ajuste fiscal. O Comitê Assessor de Bancos para o Brasil vai aceitar o pedido de "waiver"-- suspensão de cláusula-- apresentado ontem pelo presidente do BC e ex- negociador da dívida, Pedro Malan, para adiar a data final do Plano Brady do país por 90 dias, do final de novembro para o final de fevereiro de 1993 (GM).